Mais uma coluna do Ivan: Coisas de que só eu gosto

Coisas de que só eu gosto

Aquilo que a gente ama nos define. Quem a gente ama nos distingue

IVAN MARTINS
01/10/2014 09h28 - Atualizado em 01/10/2014 14h47
Na lanchonete Real, perto de casa, prepara-se um filé com ervilhas que me faz feliz há mais de uma década. Mas noto que o prato já não é tão popular. Nas últimas vezes em que o pedi, deparei com o olhar confuso do garçom, como se perguntasse: “Filé com quê?”. Então repito: “Filé com ervilhas”. E mostro com o dedo: “Aqui, está no cardápio”. O pessoal da cozinha ainda lembra como se prepara o meu prato favorito, pelo menos.

Esse filé está na categoria das coisas de que só eu gosto. Ou quase. É como Tropas estelares, um filme de ficção científica com estética de seriado de TV dos anos 1950. Vi no cinema com meus filhos quando foi lançado, em 1997 e, desde então, mais uma dezena de vezes. Dias atrás, ao listar meus 10 filmes favoritos, percebi ele que vinha em terceiro, atrás de O último tango em Paris eParis, Texas, duas obras primas. O que faz uma aventura romântica e juvenil em tão nobre companhia eu não sei. Talvez seja nostalgia da adolescência e dos seus amores impossíveis, como os do filme.

Ao pensar no filé e no filme, assim como nos livros de Jorge Semprún ou nas calças boca de sino, percebo que há peculiaridades de gosto que definem quem sou. Ou quem você é. Milhões de pessoas gostam das mesmas coisas, e isso não as distingue. Mas cada um tem preferências únicas, ou quase únicas, que ajudam a definir quem é, no meio da multidão.

Entre aquilo que mais nos distingue está a pessoa de quem gostamos e com quem dividimos a vida. Ela é única em seus defeitos e qualidades, na beleza ou na falta de atrativos. Não há ninguém mais com o mesmo sorriso ou a mesma combinação de gestos. Entre bilhões de pessoas no planeta, piores ou melhores, ninguém carrega as lembranças que ela carrega. Ninguém divide conosco as memórias que ela divide. Essa Maria, seja ela quem for. Esse João, por comum que seja. Não há ninguém em todo o mundo igual a nenhum deles. Amar essa singularidade humana nos torna igualmente singular.

Ontem, vi uma foto de Gisele Bündchen desfilando em Paris, de minissaia e botas. Pensei: “Que linda”. Milhões devem ter pensado a mesma coisa. Haverá no mundo um milhão de homens,  talvez mulheres, apaixonados por ela. Gostar de Gisele Bündchen talvez defina a vida de muitos. Gostar dela será, nesse caso, como gostar de um filme de grande sucesso ou de um livro best-seller. Algo que se pode partilhar com milhares ou milhões. Não é o mesmo que gostar de Maria ou João.

O gostar que nos define está ligado às entranhas de alguém, não à imagem que projeta. Está ligado a seus sentimentos secretos, não apenas ao que diz e faz em público. Essa conexão existe apenas entre gente de verdade, que se define, necessariamente, de dentro para fora. O que há entre nós e a aparência dos outros é somente fantasia e ilusão. Vale para Gisele ou para a garota mais bonita do colégio, por quem todos parecem apaixonados. Elas não contam como experiência única.

Aquilo que marca a biografia, aquilo que nos define, é o que nos toca e se deixa tocar. É o que se mistura ao que somos. Pode ser a mulher mais bonita do prédio que, vista de perto, era despretensiosa e divertida. Pode ser a garota com cheiro de cloro, cuja intimidade era tão rica que, anos depois, você ainda se lembrará dela com saudades. O essencial é criar vínculos que durem. Entrar em contato. Gostar e deixar-se gostar. Permitir que o outro nos olhe e pense: “Esse é meu amor”. Que é uma forma de dizer: “Esse é quem sou”. Ou será que isso é tão romântico que somente Heathcliff diria a Catherine?

Saudades da família

presenteQuem mora longe de casa sabe que a saudade é de matar. Saudade de tudo: da família, da casa, dos amigos, dos cachorros, plantas, bares favoritos … enfim, tudo. Dá saudade de tudo o que é bom. Como lidar? Não sei, ainda não descobri. Por enquanto, vou vivendo. Procuro descobrir sempre coisas novas, fazer amizades, criar raízes.

O foda é voltar pra casa. Passei 3 dias com a família no Rio e voltar foi um sofrimento. É muito ruim ter que entrar no carro/ônibus/avião e seguir para casa. É ruim não ter tempo de fazer tudo o que se quer, de ver todos os amigos, de aproveitar 100% da cidade. Três dias é tempo de menos. Dá só pra dar um gostinho de quero mais. Well voltou pra casa com essa mesma sensação. Foi ótimo, mas foi pouco.

E agora? Bem, agora é abraçar com força a nova realidade e aguardar a próxima oportunidade de estar perto daqueles que amamos.

Blog Action Day: desigualdade

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Este é o selo do Blog Action Day, um evento anual que acontece desde 2007 e promove, em todo o mundo, através de blogs, temas para discussão. Este ano o evento será no dia 16 de outubro e o tema será Inequality. Ou seja, neste dia é preciso escrever sobre a desigualdade. O objetivo é claro: refletir sobre as desigualdade no mundo. O que podemos fazer para mudar essa realidade?

Mas não precisamos pensar apenas nas desigualdades do mundo. Este tema é bem fácil de ser tratado né, ao menos aqui no Brasil. O que mais temos é desigualdade, basta olhar para o lado. E não precisa ser apenas a desigualdade financeira, muitas vezes a desigualdade está na nossa casa, no ambiente de trabalho, no prédio onde moramos. Temos todos as mesmas condições de trabalho? As mesmas condições de estudo? Precisamos ficar atentos e tentar combater todos os níveis de desigualdade. Afinal, somos ou não todos iguais?