Cape Town – a cidade: primeiras impressões

capetownAs aulas só começariam na segunda, mas cheguei na sexta-feira. E foi uma decisão muito acertada. A Maria, que me hospedou, me buscou no aeroporto e já na viagem até a casa dela pude perceber o quão acertada foi a minha escolha. Cape Town é uma cidade incrível: linda, organizada e limpa! E cheia de flores exóticas e muito bonitas. Parece bastante com o Rio de Janeiro, mas só no quesito linda rs.

Imprensada entre a montanha, a famosa Table Moutain, e o mar, a cidade tem um visual único. É colorida, alegre, divertida. Todos nas ruas parecem estar felizes, muita gente se exercita ao ar livre. Não faltam bares e restaurantes charmosos ao longo da orla. As ruas são extremamente limpas e as pessoas são cordeais.

E venta!! Como venta! Ao menos na primavera. A Maria disse que no verão o vento para de soprar, o que deve ser ótimo.Por volta do meio dia a temperatura beirava os 30 graus, mas à noite…. aí era complicado. Ao menos pra mim, carioca. Fazia frio e a situação ficava ainda pior com tanto vento. Mas, ok, tudo suportável.

A primeira coisa que fiz ao chegar na casa da Maria foi pedir para ir ao supermercado. E assim me encaminhei ao Woolworth mais próximo para comprar coisas básicas, alguma comida, sabonete… essas coisinhas. A Maria me deixou lá de carro, mas voltei a pé para casa.  Depois do banho e de um lanche rápido, de volta para a rua.

waterfrontFui caminhando de Sea Point, bairro onde me hospedei, até o Waterfront, um shopping com lojas incríveis, cinema, restaurantes, bares, docas… enfim, um lugar lindo que reúne de tudo um pouco.Essa roda gigante aí ao lado fica lá também.

A paisagem é encantadora e há sempre músicos e artistas de rua fazendo algum tipo de performance. Há também um mercadinho de comidinhas huuummm (Food Market), bem especial. Minha vontade era comer lá todos os dias, mas iria engordar horrores se o fizesse. A foto está aí embaixo. Não vou dar nenhum clique nas comidas porque é bem capaz de a gente engordar apenas olhando para a foto rs.

food-marketO artesanato local vendido no Waterfront, sobretudo no Water Shed, é encantador. E, de novo, a vontade que eu tinha era de comprar tudo. Mas o objetivo da viagem não era turismo/compras… então esse instinto gastador ficou de lado. Sério, comprei o básico do básico. Vale ressaltar que, apesar de o real valer quase quatro vezes mais que o Rand, moeda local, o preço dos produtos é equivalente. Tirando a comida em restaurantes, que é mesmo muito mais barata que no Brasil, o resto dá na mesma.

bancoNo dia seguinte decidi percorrer o centro da cidade e descobri que eles oferecem três diferentes tipos de Walking Tour. E todos gratuitos!! O primeiro que fiz foi o Historic Tour, que passa nos principais pontos da cidade como o Slave Museum, onde eram negociados os escravos, o Botanical Gardens, o parlamento e, pasmem, até por um pedaço do Muro de Berlim. Isso mesmo, quando foi presidente, Mandela trouxe de uma viagem à Alemanha, um pedaço do muro e o fincou no Centro da cidade para que todos lembrem sempre do que a intolerância é capaz de fazer.

Este tour histórico também nos leva a locais onde ainda há bancos da época do apartheid. Bancos onde só brancos podiam sentar e outros especiais para os não brancos. Muito doido tudo isso. E imaginar que o apartheid só acabou em  1994. Na verdade, ele nem deveria ter existido. Por ser muito recente, a segregação é ainda muito visível no país.

cityhallOutro ponto alto do tour é que o guia nos leva para o City Hall (da foto ao lado), local onde Mandela fez seu primeiro discurso como presidente. E é muito interessante ouvir da boca de uma pessoa que estava lá, naquela praça lotada, totalmente espremido, sobre a emoção de ver/ouvir Mandela falar como presidente. Deve ter sido mesmo muito incrível.

O segundo dos Free Walking Tour que fiz foi o  Bo-Kaap tour, que nos leva para o bairro das muitas casinhas coloridas. A história deste tour é incrível e o fiz duas vezes. Bo-Kaap é conhecido como o bairro malaio e é também o local onde foi construída a primeira mesquita do país e que reúne o maior número de muçulmanos.

bokaap2O motivo de as casas terem recebido cores tão vibrantes? Bem, não se sabe ao certo como começou. Mas contaram no tour que teria começado com uma senhora que não sabia ler e escrever e decidiu pintar a casa com uma cor bem chamativa para que pudessem lhe entregar as contas. Outro guia me disse que um médico queria diferenciar sua casa das outras, já que a arquitetura é beeemm semelhante, e teria tacado um vermelho na fachada.

bokaap3Na época da escravidão, o bairro foi declarado como sendo exclusivamente para moradia dos escravos. E escravos vindos de outros países da África, Índia, Malásia e Indonésia… fixaram moradia por ali.

O terceiro tour gratuito que fiz foi no District 6, mas este merece um post exclusivo. A história deste bairro é pesada e merece ser lembrada para que nunca mais aconteça. Fica aqui, então, a dica para que façam esses passeios gratuitos. E façam logo que chegarem à cidade. Dá para ter uma ideia de como se posicionar no centro da cidade e saber um pouco mais sobre a cultura e história local.

Confesso que fiquei surpresa com o desinteresse de alguns alunos em fazer este tipo de passeio. Insisti com alguns e os convenci a tentar. E eles adoraram. É mesmo um must do. Espero que, se um dia puder ir à Cape Town, caro leitor, faça estes três passeios. A satisfação é garantida.

 

Cape Town – preparativos para a viagem

muisenbergO último setembro foi diferente de todos os outros. Claro, completei 39 anos, mas a diferença não residiu no meu envelhecimento, mas em uma série de eventos. O primeiro deles, a mudança de apartamento. Foi cansativo, mas é muito bom poder morar em um espaço maior. Foi também o mês em que acabou meu contrato temporário no G1 e, aí sim, começou a aventura.

Antes de começar a procurar outro emprego, Wellington e eu decidimos que era chegada a hora de tirar da gaveta um antigo sonho: fazer um intercâmbio. E assim foi. No começo do ano eu já havia pesquisado a respeito e, por questões financeiras, havia optado por dois lugares: Malta ou Cape Town. Se fosse viajar, seria para um destes lugares. Mas, quando setembro chegou, não tivemos dúvida e fechamos com a África do Sul mesmo.

E foi incrível. Foi melhor do que eu poderia imaginar. E por uma série de fatores. Mas, vamos começar do básico. Caso você, leitor, queira um dia fazer um intercâmbio, recomendo que busque a ajuda de uma agência de INTERCÂMBIO. Parece besteira falar isso, mas conheci algumas pessoas que fecharam os cursos com agências de viagens e… deu ruim. Elas perderam dinheiro, não conseguiram visto para o país que desejavam, entre outros problemas.

Depois de escolhida a agência, estude bastante o destino. Eu assisti a vários vídeos sobre a Cidade do Cabo, sobre a escola que havia escolhido, meios de transporte, custo de vida e li bastante sobre os hábitos dos moradores, peculiaridades, histórias… Bem, a África do Sul é muito rica. Há muito o que aprender com o povo e com seu passado recente de segregação, mas este será tema de outro post.

Daí você pode estar se perguntando: Nossa, mas fazer intercâmbio com 39 anos? Não está velha? Não ficou com medo de deixar o marido sozinho? E a minha resposta para tantas “dúvidas” é NÃO!!!

lalPrimeiro que não acredito em limite de idade para estudar o que quer que seja. Na minha turma havia gente de todos os países e idades. Havia um francês que largou o emprego e mudou com esposa e três filhos para a Cidade do Cabo. Decidiram estudar inglês e ele devia ter quase 50. Havia também uma angola de mais de 40, que também mudou com os filhos, um brasileiro de 40 e poucos. Como podem observar, o limite está na cabeça de cada um.

E também não fiquei com medo de ficar longe do Wellington. Ele é bem grandinho e não requer maiores cuidados rs. Sabe comer, se vestir, tomar banho.. tudo sozinho rs. E, de verdade, ficar ou não no Brasil, de ‘olho nele’ não iria impedir que ele fizesse o que bem tivesse vontade. Quem trai, o faz em qualquer lugar, não é mesmo. E sob qualquer vigilância.

Mas, voltando aos preparativos da viagem. Depois de escolhida a cidade, ter estudado sobre o destino, a escola…. chegou a hora de escolher a acomodação. Eu tinha a opção de ficar na própria escola ou em casa de família, mas decidi alugar um quarto no AirBnB. Nunca havia me hospedado pelo site, mas sempre ouvi dizer que era uma boa opção. Pesquisei sobre alguns locais próximos à escola e fiz a melhor escolha possível. Fiquei na casa de uma sul africana, solteira, de 35 anos, e que é uma pessoa incrível: Maria.

A casa era muiiito bem localizada: a 200 metros da praia e a 500 metros da escola. Era charmosa, limpa, com uma cama confortável e, claro, uma poodle fofa que me fazia companhia sempre que possível, a Zoey.

Além da comodidade, privacidade,…. ficar na casa da Maria acabou se mostrando a melhor escolha porque eu pude conversar muiiito com ela. E sobre tudo. Aprendi bastante sobre a cidade, o sistema educacional, a economia, a atual situação política e, claro, sobre homens. Acabei fazendo uma amiga e isso não tem preço, não é. Passeamos,  bebemos vinho, assistimos a filmes juntas. Foi perfeito.

Outro importante ponto a destacar nesta fase de preparativos é a burocracia. Achei que meu passaporte estava Ok e paguei a viagem toda. Daí… percebi que o mesmo estava vencido e foi aquela aventura. Mas consegui urgência, visto que eu iria viajar em 20 dias, e meu novo passaporte ficou pronto em uma semana.

O bom da África do Sul é que, se você vai ficar menos de três meses, não precisa de visto. De resto, só mesmo vacina para a febre amarela, que eu já havia tomado, e o seguro de viagem. Como podem perceber, não há nenhuma grande burocracia. Escolher a África do Sul é bem prático. Vale ressaltar que, como eles foram colonizados por ingleses, o sotaque britânico é um plus a mais, rs, é lindo e charmoso.

Foi uma experiência incrível e, ao final, eu já estava lamentando não poder ficar mais tempo. Infelizmente, se ficasse mais de um mês, eu iria reprovar em algumas matérias na pós-graduação que estou fazendo na USP e esta não era uma opção.

Bem, sobre a preparação da viagem, é isso. Contarei em outros posts sobre a chegada à cidade, as primeiras descobertas, o curso e o que há de legal para fazer em Cape Town. Inté.

 

 

O inesperado

O inesperado

IMG_5384(1)A vida é sempre uma surpresa. A cada dia, quando abrimos os olhos, temos que sair da cama preparados para tudo, definitivamente tudo: do pedido de casamento à morte de alguém querido. De um resultado de exame à demissão. De uma batida de carro ao encontro de um envelope de dinheiro no chão. Qualquer coisa pode acontece. Boas e ruins.

Hoje está sendo um dia curioso. Um mix de emoções. Que coisa doida. Só tenho a agradecer por estar viva.  Um colega de trabalho foi demitido e fiquei pensando: certamente ele não esperava, sem dúvida deveria alguns planos, talvez umas dívidas. Já passei por isso e conheço alguns jornalistas que, recentemente, também perderam seus empregos. É desolador.

Por isso deixo aqui registrado meu apoio e solidariedade a todos que estão tendo que se reinventar, e não são poucos. Espero que todos consigam  reassumir as rédeas de suas vidas, sempre de cabeça erguida, e dar a volta por cima. Sim, se tem algo que aprendi nessa vida é que não há nada como um dia após o outro. Então, vida que segue.

Por que escolhi a imagem de uma densa Mata Atlântica para ilustrar o post? Por que ali dentro ocorre um pouco de tudo: vida, luta, morte.

Para onde estamos indo?????

Para onde estamos indo?????

caminhos

O sentimento é o mais estranho possível.Revolta? Não. Decepção? Também não. É uma tristeza mesmo, uma melancolia, um sentimento de vazio. É assim que costumo me sentir todas as vezes que aposto em algo errado ou em alguém que eu prezava muito e que dá uma bela pisada na bola comigo. E, pode acreditar, não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Inclusive na família. E continua acontecendo. A impressão que tenho é que não há antídoto para este problema, não há defesa. Nem mesmo o tempo nos dá jogo de cintura para lidar com algumas situações.

Acho também que sou um pouco mestre na arte de escolher caminhos errados. Sim, há de ter alguma explicação plausível para tanto. Qual? Ainda não sei. Talvez descubra algo daqui a alguns anos.

A única certeza que tenho hoje é das coisas que realmente quero e do que é importante para mim. Sim, isso já é bastante, estou no caminho certo. O que preciso fazer? Arregaçar as mangas, fazer uma bela faxina em minha vida. É certo que já comecei este caminho. Longo, diga-se de passagem, mas um caminho extremamente necessário.

Daí você, que me lê com carinho, deve estar se perguntando: “Mas de que diabos a Renata está falando?” Quer mesmo saber? Bem, pouco importa. Motivos não me faltam, acredite. E você, leitor, também já deve ter passado por situações semelhantes, ter sentido o mesmo.

Sabe quando a gente é alvejado por tiro de todos os lados. Por isso, fica aqui apenas um momento de reflexão de que precisamos, cada vez mais, valorizar as pessoas que realmente nos amam. E falo aqui daquele amor incondicional. Do amor de quem nos respeita e nos admira pelo que a gente é e não pelo que tem ou pelo que aparenta ser. Eu aparento ser um tanto de coisas, eu sei, mas estou longe, bem longe, de ser o que a maioria pensa de mim.

Certamente passo mensagens erradas. Grande falha que tenho tentado corrigir (vai aparecer meia dúzia de amigas dizendo que estou fazendo uma avaliação errada sobre a minha pessoa, mas acho que estou sendo realista mesmo). É muito complicado, beirando os 39 anos de vida, ter que reaprender a ser gente, a falar, se posicionar, a agir e reagir a determinadas situações. Que impotência!! Que coisa estranha!!

Que mundo extremamente caótico e bipolar este em que vivemos. Cada vez mais pessoas matam por religião e até mesmo por um pretenso amor. Onde já seu viu… matar por amor?? Pois é, mas acontece. E há quem morra (se mate) pelo mesmo motivo. Não entendo, definitivamente, eu não entendo.

Há quem diga que o problema é a falta de religião. Mas essa é uma desculpa que não me desce, fica aqui, entalado na garganta mesmo. Vejo tantos pregadores por aí cometendo os maiores pecados, até mesmo sobre a vida. Está tudo fora da ordem.

Tenho muitos amigos perdidos também, que não gostam mais de seus trabalhos, de suas famílias, que pensam em mudar completamente o que fazem, alguns até já trilharam este caminho. Mas os problemas não são apenas de ordem financeira, de trabalho…

São crises existenciais. Vejo gente que não sabe para onde ir, olhar, não tem ideia do que fazer. Neste sentido, me sinto até privilegiada. Sei que estou no meio do tiroteio, mas sei de quem (e do que devo) me proteger.

Espero achar uma solução para meus problemas e espero que meus amigos também encontrem seus caminhos. Até porque, na maioria das vezes, a gente não sabe mesmo para onde está indo. Vamos, ao menos, curtir a viagem.

Tio Valdecy e eu

OI Renata , Boa noite!
Acabei de falar com Tio Valdecy ele pediu para mandar uma fotos
pra você ma preciso da confirmção do seu e-mail se é este mesmo
que ele mim passou..
Aguardo o retorno ..
Um abraço.
Vânia
Então, a mensagem da Vania chegou ontem à noite no meu email. Um engano, obviamente.  Só conheço uma Vania que poderia me mandar um email e não tenho mais contato com ela. Também não sei quem é o Tio Valdecy, mas achei o nome divertido. Espero que ele seja uma boa pessoa. Pelo nome, quem sabe, ele deve ser do tipo Nem, do tipo que fala nós vai, nós foi, a gente vamu tudo e pra mim fazer. #fato

O inesperado

Não adianta relutar. Caso você tenha uma vida normal, o inesperado vai bater em sua porta. Pode ser numa manhã de domingo, num email que chega na madrugada de terça, nas correspondências que chegam na tarde de quarta, na fila do banco ou mesmo através do sistema de mensagem que insistem em instalar no computador do seu trabalho. As notícias/acontecimentos chegam e mudam nossas vidas. Mudanças estas que podem ser para sempre, como as que alteram o curso de um rio.

O que fazer? Aceitar. E falo das coisas boas e ruins. Claro que as coisas boas a gente aceita com maior facilidade. Ganhar na loteria e pode chutar o balde do emprego e percorrer o mundo é algo inesperado e 100% positivo, mas nem tudo na vida são flores e, nestes casos, é preciso ter ainda mais jogo de cintura.

Sabe quando a gente vai ao salão cortar o cabelo e especifica muito bem o que quer, mostra fotos e tal e… no fim fica uma bosta? Então, nestas horas não adianta chorar ou brigar com o pobre que destruiu suas madeixas com a tesoura. Vale a máxima do ESPERAR QUE O TEMPO RESOLVE. E resolve. De uma forma ou de outra, a vida nos oferece soluções. O importante é confiar. SEMPRE !!!

Mulheres no Exército!

Mulheres no Exército!

Alguns já sabem que voltei a fazer uma das coisas que mais amo. Estou editando o G1 aqui de Campinas e, quando sobra um tempo, faço uma ou outra reportagem. Na última semana fiz uma matéria sobre a possibilidade de mulheres chegarem ao alto comando do Exército. Uma mudança e tanto. E muito bem-vinda! Segue o link da matéria.

Adorei fazer a reportagem, o que me deixou mesmo chocada foi ler os mais de 15o comentários. Boa parte deles são misógenos, preconceituosos, uó. A humanidade está, praticamente, perdida. Não vou dar espaço aqui para este tipo de gente e, por isso, não reproduzirei estes pensamentos. Deixo a  íntegra da matéria. Quem quiser dar uma lida e até rebater estes comentários, vai ter que ir lá no G1 mesmo.

 

Mulheres ingressam pela 1ª vez como cadete e podem se tornar general

A partir de agora, elas poderão chegar até o comando das tropas.
Dos 28.900 inscritos no concurso da EsPCEx, 7.600 são mulheres.

Renata Victal Do G1 Campinas e Região

Cerimônia recebe novos alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exércio em Campinas (Foto: Reprodução EPTV)

A Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) em Campinas, SP, passou por obras e está pronta para receber suas primeiras alunas  e, quem sabe, ser a primeira unidade do Exército Brasileiro a acolher uma mulher que poderá ir à linha de combate e, posteriormente, assumir o cargo de Comandante. O fato inédito, no entanto, só será possível em 2063, após uma longa carreira militar.

E isso porque, pela primeira vez na história, o Concurso de Admissão à EsPCEx abriu 40, de suas 440 vagas, para o sexo feminino. Segundo o comandante e diretor de ensino da unidade, o coronel Gustavo Henrique Dutra de Menezes, a procura das mulheres pela carreira militar tem sido grande. Nas duas primeiras semanas de inscrição, dos 28.900 interessados em fazer a prova, 7.600 são mulheres. E a expectativa na corporação pela chegada das moças é alta.

As mulheres são muito determinadas e destemidas. Elas vão puxar para cima nosso nível intelectual, como já acontece nas escolas militares”
Comandante Dutra

“Dentro das Forças Armadas, na linha bélica, o Exército é o último a integrar a mulher. Nossa expectativa é altíssima. Acredito que a chegada delas vai alavancar nosso nível disciplinar e estudantil. As mulheres são muito determinadas e destemidas. Elas vão puxar para cima nosso nível intelectual, como já acontece nas escolas militares. Sabemos que as primeiras colocadas nos colégios militares, normalmente, são mulheres. Espero receber, no dia 24 de janeiro, 40 moças extremamente preparadas”, ressalta o comandante.

Longa trajetória
Depois de passar pelo difícil vestibular em setembro, que tem previsão de 150 candidatos por vaga, as mulheres enfrentarão outro desafio: a longa e grande peneira das forças armadas. Se tudo der certo, elas serão oficiais do exército em 2021 e, a partir daí precisarão chegar às patentes de 2º tenente, 1º tenente, capitã, major, tenente coronel, coronel, general de brigada, general de divisão, general de exército e, só depois, comandante do exército. Quem entrar para o exército no próximo ano, sendo mulher ou homem, só pode atingir o cargo de comandante de tropa em 2063.

Comandante Dutra na Escola de Cadetes, EsPCEx, em Campinas (Foto: Divulgação/EsPCEx)

“Hoje em dia uma turma só pode disputar uma promoção de generalato depois de 30 anos de formado. E, quando se torna general, é preciso estudar por mais 12 anos. E só o general de exército pode concorrer para ser um comandante do exército. Nossa carreira é um funil perfeito. Uma turma que forma 100 pessoas, vai promover de seis a sete generais de brigada, outros quatro como generais de divisao e apenas dois generais de exército. A mulher disputará de igual para igual e precisará passar por toda esta trajetória”, explica o comandante.

As provas escrita, física e os desafios disciplinares da corporação não assustam Julie Passos de Lima, de 20 anos, estudante de Letras na PUC-Campinas e uma das interessadas em ingressar na escola de cadetes. A jovem não pensa duas vezes ao afirmar que espera chegar ao posto de Comandante.

“Meu sonho sempre foi fazer carreira no Exército e eu já estava cogitando entrar na Marinha só para ser militar. Mas, assim que soube da abertura de vagas para mulheres na EsPCEx, me inscrevi. Se entrar, não vou sair. Quero ser coronel e virar comandante do Exército”, conta a jovem.

Julie estuda para entrar na Escola de Cadetes (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)Julie estuda para entrar na Escola de Cadetes (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Sem maquiagem
Para realizar o sonho, Julie está disposta a abrir mão de outro grande prazer: a maquiagem. E, de acordo com as regras, ela só poderá usar um batom claro e colorir os cabelos apenas para cobrir os fios brancos e, mesmo assim, sempre de acordo com a cor natural dos cabelos. Nas unhas, nada de esmaltes escuros ou francesinha.

“Sou doida por maquiagem, mas estou preparada para abrir mão dos pincéis e de abdicar de algumas coisas em nome do meu sonho maior que é entrar para o Exército”, garante Julie.

Andrea Araki não pensa em largar o violino nem mesmo no Exército (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)Andrea Araki não pensa em largar o violino
no Exército (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Outra que está decidida a deixar a vaidade de lado é Andrea Araki, de 20 anos, que pretende pilotar helicópteros pelo exército.

“Muita gente acha que ser militar é viver em uma zona de guerra, mas é uma profissão normal. Meu pai é Coronel aposentado e sempre tive o desejo de seguir a mesma carreira. Hoje meu sonho é pilotar os helicópteros do exército”, deseja Andrea.

Para chegar logo às alturas, Andrea, que é auxiliar de enfermagem, está apostando pesado nas aulas em um curso preparatório, em aulas particulares de reforço e, claro, em corridas diárias dentro do condomínio onde mora. Em julho, ela conta que fará uma última loucura: pintar os cabelos de verde.

“Sempre fui muito vaidosa, adoro maquiagem, mas sei que vou ficar com a cara pelada. Por isso, estou abusando agora e vou fazer uma última loucura nas férias. Vou pintar os cabelos de verde porque será a última vez que poderei fazer isso”, diz confiante.

A única vez em que fraquejou e repensou se deveria ou não prestar concurso para a escola de cadetes foi quando acreditou que teria de largar uma outra paixão, o violino.

“Pratico quatro vezes por semana e só fiquei tranquila quando soube que é possível tocar lá dentro, em locais reservados e em momentos de lazer”, conta Andrea.

Alojamento masculino na EsPCEx em Campinas (Foto: Renata Victal)Alojamento feminino terá camas como as
masculinas Foto: Renata Victal)

Obras de adequação
Para receber bem as mulheres, o prédio da Escola de Cadetes passou por reformas. Dentre as adequações, foi feita a adaptação de um pavilhão para o alojamento feminino, com vestiários, banheiros, sala de estudo e grêmio estudantil. Também será construída uma nova ala de saúde, pensando nas peculiaridades do atendimento feminino.

E os cuidados com as mulheres são visíveis. Os novos banheiros, por exemplo, ganharam boxes individuais e vidros jateados. Aliás, todas as janelas do alojamento feminino receberão cortinas. Tudo para dar mais privacidade e tornar o ambiente mais acolhedor.

As camas serão beliches e os armários também serão de ferro, iguais aos dos homens. Todo o mobiliário será instalados já na próxima semana. As salas de estudo também foram finalizadas, inclusive já possuem sinal de internet wireless. Na lavanderia, as jovens cadetes terão três máquinas de lavar e algumas tábuas de passar roupa.

“Tudo o que eles têm, elas terão. A diferença é que o alojamento feminino terá tudo novo. A isonomia será total”, garante o comante Dutra.

Banheiros masculino e feminino na EsPCEx (Foto: Renata Victal)Os banheiros masculinos não têm divisória entre chuveiros, já os femininos oferecem privacidade no banho (Foto: Renata Victal)

Preparo físico
Após um ano de curso na EsPCEx, as alunas aprovadas seguirão para a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), onde escolherão a área de especialização: o Quadro de Material Bélico ou o Serviço de Intendência. As exigências serão as mesmas para ambos os sexos, com ressalva de que os índices dos exercícios físicos serão adaptados para as mulheres já na escola de cadetes.

Para adequar os exercícios, o comandante Dutra conta com a ajuda de um time de especialistas do Instituto de Pesquisa da Capacitação Física do Exército (IPCFEX), do Rio de Janeiro. Juntos, e em parceria com a Aeronáutica e a Marinha, eles estão mapeando os exercícios físicos mais adequados às mulheres.

Descobrimos que alguns exercícios causam mais lesões nos quadris e que outros são mais fáceis para as mulheres. Estamos nos adequando para não sermos injustos”
Comandante Dutra

” Estamos verificando na prática alguns exercícios para adequarmos os índices físicos, sem prejudicar um ou outro. Tudo no Exército é mensurado e as mulheres serão avaliadas da mesma forma que os homens. Para nós, uma prova de cáculo 1 tem o mesmo peso do que uma prova de corrida. Por isso estamos revendo os índices físicos para as mulheres. A ideia é que não seja nem muito fácil ou muito difícil, mas sempre respeitando as diferenças físicas”, explica o comandante Dutra.

 

Mulheres no Exército
Hoje, as muheres podem ingressar voluntariamente no Exército como militar de carreira ou temporário, mas não podiam seguir no Quadro de Material Bélico ou no Serviço de Intendência. A mudança só se tornou possível graças à Lei nº 12.705, sancionada em 2012 pela presidente afastada Dilma Rousseff, permitindo que militares do sexo feminino atuem como combatentes do Exército Brasileiro em áreas antes restritas aos homens.

Com a mudança, o Exército Brasileiro passa a seguir os exemplos dos EUA, Israel e Inglaterra, que já possuem mulheres prontas para combate.

“O batalhão que comandei ano pasado no Haiti, tinha 12 mulheres, mas elas eram médicas, enfermeiras, advogadas e psicólogas”, conta o comandante Dutra..

Gravidez
De acordo com o edital do concurso para ingresso na escola de cadetes, em caso de gravidez, as alunas poderão trancar suas matrículas durante toda a gestação e no período da licença maternidade. No entanto, elas só poderão voltar a estudar no início do ano letivo, ou seja, em janeiro seguinte.

“Se, por um acaso, o período de licença maternidade acabar em junho, ela só poderá voltar a estudar em janeiro do ano seguinte”, ressalta o comandante.

Fachada da Escola de Cadetes em Campinas (Foto: Divulgação/EsPCEx)Fachada da Escola de Cadetes
em Campinas (Foto: Divulgação/EsPCEx)

Concurso
Quem quiser pode se inscrever para a prova da EsPCEx até 28 de junho. Os interessados devem estar concluindo ou ter concluído o ensino médio, possuir entre 17 e 22 anos no ano da matrícula e estar em dia com o Serviço Militar e com a Justiça Eleitoral.

O período de instrução e formação do aluno na EsPCEx é de um ano em regime de internato. Dentre os benefícios, o  aluno recebe auxílio fardamento, ajuda de custo mensal de R$ 969,54, alimentação, assistência médica e odontológica.

Após a conclusão da EsPCEx, o aluno tem acesso garantido na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, Rio de Janeiro, onde cursa outros quatro anos, completando assim a formação superior militar e tornando-se Aspirante a Oficial, com vencimentos iniciais de R$ 5.622,00  e uma carreira pública no Exército Brasileiro.

No site da EsPCex estão disponíveis o Edital e o Manual do aluno. A taxa de inscrição é de R$ 90.  A primeira fase do concurso ocorrerá nos dias 10 e 11 de setembro de 2016, em 43 locais, distribuídos em todo território nacional.