.. Sim, tenho pensado bastante. As coisas que acontecem ao meu redor (muitas, acredite), as coisas do dia-a-dia, os filmes que tenho assistido e um livro, em especial, me deixa em ebulição.

Recomendado por uma amiga na sexta, comprei no sábado: “A arte de ter prazer. Por um materialismo hedonista”, do filósofo Michel Onfray. A leitura não é das mais fáceis e tb não é de sacanagem, como muitos vão pensar.

O livro explica a visão de alguns filósofos sobre o corpo. To reduzindo beemmmm o contexto do livro porque não é sobre isso que quero falar, mas sobre as primeiras páginas. Sério, se tivesse parado a leitura por ali já estaria preenchida. Foi a descrição mais perfeita de um enfarto que já li em toda a minha vida. Sei que nunca enfartei, pelo menos não fisicamente, mas consegui sentir, como leitora, cada dor expremida naquelas palavras. Um texto belo, corrido, perfeito. Fiquei fascinada. Queria muito escrever daquela forma.

Eis um trecho: “Meu corpo parecia se escoar por uma fenda talhada a navalha que eu sentia como o avesso do meu coração. A brecha engolia minha carne, meu sangue e tudo o que pudesse apresentar-se sob forma de alma. Os músculos se retesavam até a tetanização, a mineralização, e o ritmo cardíaco se transformava em estridências. A consciência desaparecia naquele apocalipse que se tornara seu único objeto; eu já não era mais que uma imensa dor acompanhada de contorções, buscando desesperadamente uma posição aplacadora. Em vão. Às vezes, num jogo de reflexos, eu me via metamorfoseado em sofrimento puro, como que diáfano ou cristalino, prestes a me quebrar em estilhaços e fragmentos múltiplos. Eco singular de uma decomposição de tipo geológico.

A concentração da dor em um ponto de atordoante  densidade abolira toda distância entre a dor e a consciência que pudesse apreendê-la. Uma estranha alquimia liquefazia a carne em energia ardente. Cada instante ameaçava uma pulverização que siginificaria o fim – que eu desejava.

O médico diagnosticou um enfarte, eu ia fazer 28 anos, e naquela segunda-feira, 30 de novembro, meu corpo experimentou uma sapiência que se transformaria em hedonismo”

Perfeito, não? E tem mais. Saca como termina este primeiro capítulo:

 ….”Os batentes da porta se abriram, o leito foi retirado da sala de reanimação e o cadáver se foi, para outro lugar, passando coberto pelo sudário diante das visitas e da família que esperavam no corredor. Ao meu lado, eu não conseguia desviar o olhar do buraco deixado pelo lugar vazio da cama que fora levada. Morrer era, portanto, muito simples. Depois daquela lição das trevas, restava fazer do corpo um parceiro da consciência, reconciliar a carne e a inteligência. Toda existência é construída sobre areia, a morte é a única certeza que temos. Trata-se menos de dominá-la do que de desprezá-la. O hedonismo é a arte desse desprezo.”

 E isso sem falar das citações ao longo do livro. “Viver de modo que imperiosamente desejes reviver, é esse o teu dever”, Nietzsche. ou “Desfruta e faz desfrutar, sem fazer mal nem a ti nem a ninguém: essa é, creio eu, toda a moral”, Chamfort.

Não é pra mexer com a cabeça de qq um? Pois a minha está fervendo.. que bom !

Feliz Natal

Pois bem, se ontem assisti a dois fimes bons. Hoje,…. bem, vi Feliz Natal, do Selton Mello, e não gostei. A história parece ser bem real, os atores são e estão ótimos, os cenários tb são bacanas, mas… sei lá, muito incômodo. Não gostei. Achei arrastado em alguns trechos, confuso em outros. Não me atrai a estética de imagens sem foco, tremidas, corridas. Cansa… Se quiser sair do cinema da mesma forma que entrou, ok, vá ver o filme. Caso contrário, fique em casa e durma. Será melhor.

Picaretagem

Adoro, mas adoro mesmo, o desconhecido. Talvez por isso as terapias alternativas, sobretudo as não comprovadas, chamem tanto a minha atenção. Hj, no cinema, peguei um daqueles jornais gratuitos. Chama-se Oxigênio. Ali tem de um tudo. Mas, engraçado mesmo são os anúncios. Uns são bem bizarros.

Vcs sabiam que existe um anel terapêutico para ronco ?? Pois é, nem eu. Muito engraçado. Tem foto e tudo. O mais genial é que tem um passo-a-passo com 5 dicas para usar corretamente o anel. A terceira é a melhor de todas: “dormir virado para o lado, nunca olhando para cima”. Sensacional !!! Claro que se o maluco dormir de barriga pra cima, a chance de roncar é maior. Amei o anel. 100% enganação e a propaganda não faz questão de esconder isso ahaha.

Mas tem mais. Outro anúncio que me chamou muita atenção, entre os 5435465 mil anúncios de baralhos ciganos (que amo) e cristais, foi o de “Chèrie, vidente fantástica”. O sensacional neste anúncio é que ela coloca em letras garrafais: “NÃO ATENDO HOMENS”. Óbeveo que sei o motivo: ela deve ser a maior picareta e homens são mais difíceis de enganar. Melhor, ela ainda coloca uns depoimentos para dar veracidade ao anúncio. Uma tal de Lia, segundo ela, tentou engravidar por dois anos e nada. Mas, depois de uma oração dos raios azuis (???????).. pimba. A mulher engravidou e o neném ainda nasceu nos braços de Chèrie. “Foi uma emoção muito grande”, descreveu a vidente ahaha Gentem, isso é muito bom. Poesia pura. Casseta e Planeta perde pra este tipo de coisa.

Quem estiver interessado, pode visitar o site da vidente que pertence a uma família dasmais tradicionais do Ceará. Ela é direta, objetiva e não vende ilusões, diz o anúncio. O site é www.cherievidente.cjb.net

Acredite, vale a pena visitar o site. Eu fui, claro. rs Eis um trecho de uma entrevista publicada lá. Dá uma olhada nas respostas. MUITO BOM. MATERIAL DE PRIMEIRA QUALIDADE RS:

PRANA: O que é falar sobre o presente? 

 

CHÉRIE: É o momento. Ouço e vejo as problemas com amantes, doenças, roubos, dinheiro etc…: E o futuro ?CHÉRIE:O futuro é conseqüência do presente e do passado. Veja a vida profissional. Digo se vai haver casamento, se terá filhos (homem ou mulher), Saúde, enfim, vibro na energia do cliente.”

PRANA

Se for…que seja

Se for para me queimar
Que seja no calor de seu abraço
Se for para perder a cabeça
Que seja entre suas pernas
Se for para me asfixiar
Que seja em seus seios
E se for para eu morrer
Que seja afogado
No doce mel do seu beijos
Mas se for (existir o) para sempre
Que seja eternamente ao seu lado.

Coração Gelado

Posto roubado do blog A coisa fora de si. Jájá vou colocar o link aí do lado.

Não resisto…

… tenho que escrever sobre os filmes que assisti ontem. Sim. vi dois.OK, eu tinha de aproveitar minha folga né. O primeiro foi Vicky Cristina Barcelona. Saí do cinema com a cabeça cheia. Woody Allen é foda. Amo todos os seus filmes e não foi diferente com este. Não sei se vc, leitor, já assistiu, e o que achou das personagens centrais. Me identifiquei com as duas.

Sim, isso é possível. Sou um pouco de Vicky e um pouco de Cristina. Já vivi situações das mais variadas possíveis. Sou o tipo de pessoa que pensa pra caralho, que analisa tudo. Sim, já casei com um cara certinho, que achava ser ideal, perfeito. Um cara sem problemas aparentes, que seria o marido perfeito. Pensei, juro mesmo que pensei, que aquela relação era ideal. Não era, óbeveo. E saí frustrada.

Tb já vivi o oposto. Me vi em situações do tipo “Caralho, pq to fazendo isso? Para onde estou indo”. Sem dúvida sou o tipo de mulher que entraria num avião de um desconhecido para conhecer um lugar muito bacana. Já entrei em carros, se serve de exemplo.

Enfim, sou um pouco das duas. Na verdade, acho que todo mundo é. Cada qual de uma forma. Uns mais, outros menos. Uns assumem, outros não.

Bem, saí do cinema com muitas perguntas na cabeça. Duas horas depois, fui assistir Romance, de Guel Arraes. Caralhoooooooo. Que filme é este? ÓTEMO !!! Me deu todas as respostas. Sim. O ideal é assitir Allen antes e Arraes depois. Se puder, no mesmo dia.

Sou muito Tristão e Isolda. Impressionante. Quando falo sobre minhas concepções de amor, no geral, sou criticada. Mas,ok, elas são como esta lenda celta. Sou uma variação da afirmação de que não existe amor sem dor, de que paixão é sofrimento, e ainda de que o amor recíproco  feliz não existe. Será??

“A palavra paixão quer dizer sofrimento: paixão de Cristo, por exemplo. Quem diz que está apaixonado diz que está sofrendo por amor e, o que é mais incrível, está gostando de sofrer. Nas histórias românticas, amar significa sofrer.”, diz um trecho do filme. “Não se pode querer que o amor traga só felicidade”, diz outro trecho. Os dois são perfeitos, não?

 Wagner Moura e Letícia Sabatella estão perfeitos no filme. AH! Marco Nanini é genial. A participação dele é de arrancar risos. A fotografia é linda, as músicas. Muito bom. Imperdível.

vida injusta

A vida é incoerente, disso sempre tive certeza. E é tb injusta. Hj, por exemplo, estou de folga e tá chovendo, claro. Acabei resolvendo algumas coisas práticas, mas que nnca tenho tempo. Fui ao sapateiro, por exemplo. Depois, decidi ir ao cinema.

Quem sabe onde moro tem noção de quão perto do shopping é. Pois bem. Larguei o carro em casa e fui a pé. Mas a pessoa qdo acorda cagada sabe como é… peguei uma mega chuva. Ainda estou com a roupa molhada. Mas tudo bem. Mos mal pq acabei de sair do cinema. Fui assistir Vicky Cristina Barcelona. Amei o filme.

Não vou ficar aqui falando sobre a história  e se me identifiquei com A ou B. Simplesmente recomendo a película rs.

Mas, as injustiças da vida não acabam no dia de folga e chuva. Acabei de dar um fora num cara. Isso mesmo, por telefone. Que a gente quer, não nos quer… e o contrário vc já sabe né. Tudo começou na noite de sexta. Fui ao samba de semre com as amigas de sempre. 

Eis que, em determinado momento, um negão pintoso me tira pra dançar. Eu fui. Não pensei duas vezes. Ou melhor, pensei:”É hoje que vou conhecer um negão” rs (seguindo recomendações de amigas de que não posso morrer sem conhecer um, se é que vcs me entendem rs). O cara era bem cheiroso e dançava bem. Ponto para ele. Mas sabe como é…. a tal da conversa. 

Eu e minhas malditas perguntas rs. Ele disse que conhecia um amigo que estava comigo no samba. O Marcelinho. Perguntei: Vc é jornalista? Pra que perguntar??? Antes tivesse beijado logo rs. Eis que o maluco manda que está terminando a faculdade de direito porque quer fazer concurso pra delegado. OK OK. Isso já era suficiente para eu me afastar. Mas, sabe como é… sempre pode piorar. rs Aí, ele mandou que já era policial, mas que trabalhava no Desipe. Isso mesmo caros leitores, o negão é daqueles truculentos que fica batendo em preso no sistema penitenciário rs.

Ali foi jogada a última pá de terra. Mas, querendo enterrar ainda a pouca, ou quase nenhuma, possibilidade que tinha, o maluco disse que também é compositor de samba do Salgueiro. OKOK OK zeroooooooooooooo chance de ficar com ele. Fecha a tampa do caixão. rs Mas, sabe como neguinho é insistente né.  Ele veio com papinho mole, disse que tava de olho em mim desde a última semana, que eu tava vestida assim, assado. Ok, era verdade. Aí, esperto, ele tentou ficar comigo e eu disse que não ía rolar.

Ele quis saber o motivo e eu, sempre muito sincera, disse que um outro carinha com quem eu costumava ficar estava ali (o que era verdade) e que eu não me sentiria à vontade com a situação (o que era verdade). Ele lamentou e pediu meu telefone. Eu tenho muiiiiita dificuldade em dizer não às pessoas, sobretudo ao vivo e a cores. Ok, dei o número e o malandro foi embora.

Passados uns 10 minutos, recebo uma mensagem de texto. Simmmm, malandro mandou poesia pro meu celular dizendo que tinha adorado me conhecer. Ok, fofo, mas não dá né, o cara trabalha no Desipe !!!

Aí, sábado, eu lá, dormindo toda toda, recebo uma ligação. Atendo, ainda com sono. Quem era?? O negão. Simmmm, o cara me acordou. Ele percebeu, pediu desculpas, mas não perdeu a oportunidade para me chamar prum sambinha à tarde. Declinei. E vcs acham que ele desistiu???? Nãooooooooooo. No inicio da noite, outra mensagem…malandro me chamando pra sair. Não respondi. E ele desistiu????? Naõoooooooooooo. Ligou no domingo, de outro celular, pra me chamar pra sair. E ele desistiu?????????? Nãooooooooooo. Acabou de ligar.

Queria saber como eu estava. Todo fofo. Mas, não aguentei né. Mandei a real. Disse que era pra ele parar de me ligar, que a gente podia ser amigo, mas que eu gostava de outro e não achava justo (este papo sempre cola)… OK OK. Espero que ele tenha entendido rs.

Mas isso é fodaaaaaaaaaaaaaa. Quem eu quero, não me quer. Que vida injusta da porra. Pior, me sinto culpada em reclamar porque sei que há coisas piores na vida. Esta culpa cristã me consome. PQP.

Sensacional

O Texto é de Rubem Alves. Simplesmente foda.

A solidão amiga


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“…Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília…“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

(Correio Popular, 30/06/2002)