JB – acabou o papel, e faz tempo

A notícia está em todos os lugares: a partir de 1º de setembro o Jornal do Brasil terá apenas sua versão on line. Obviamente muitos serão demitidos. É ruim para nós, jornalistas, e também é ruim para a sociedade. Se bem que, pensando bem, nos últimos anos não podemos dizer que o JB teve grande papel na sociedade e digo isso com propriedade. Trabalhei na empresa em três ocasiões distintas. A primeira vez, em 2000, foi a realização de um sonho.

Estava saindo da faculdade e trabalhar no prédio na Av. Brasil 500 era um luxo. Não digo isso pelo glamour e blá, blá, blá, mas pela história. Sentar naquelas baias, respirar aquele ar (ok, me dava alergia pq o ar condicionado não era limpo desde a década de 80, mas tudo bem) e ver o café sendo servido por um funcionário a todos, sempre às 15h, era muito bacana. As reuniões de pauta em uma sala grande, com um mesão de respeito. O Brito´s, restaurante que nunca mudava o cardápio ou o tempero. E ainda o respeito que se tinha pelos editores, pelo aquário. As primeiras capas dos jornais concorrentes coladas na parede para serem comparadas com a do JB.  Era tudo muito profissional. As pessoas eram informadas, dedicadas, empolgadas. E olha que já naquela época alguns salários começaram a atrasar.

Daí, veio Nelson Tanure e toda uma leva de paulistas tomou conta da redação. Nada contra os paulistas, mas eles foram apresentados como a salvação do jornal. Muitos e muitos furos seriam dados. Isso, sinceramente, não durou 8 meses. Até porque a salvação do JB nunca esteve na mão dos jornalistas, dos profissionais que ali suavam suas camisas. Logo os salários voltaram a atrasar, muitos retornaram para SP e o jotinha foi se esvaziando novamente. O desânimo tomou conta e peguei meu banquinho e fui dar expediente em outra redação.

Alguns anos mais tarde, voltei para o JB. Dessa vez, na Barra da Tijuca, em uma redação bacana, moderna. Isso mesmo, havia uma sucursal na Barra. O clima, confesso, era bem diferente daquele da Av. Brasil. A redação era tomada por estagiários e eu era a mais experiente. Uma loucura que preferi trocar por uma assessoria de imprensa. Precisava ganhar dinheiro, sabe como é, né, e ter um pouco mais de tempo para minha vida pessoal.

Depois de muito rodar, uma amiga mega querida me chamou para retornar ao JB, anos mais tarde. Agora, no Rio Comprido. Fui e fiquei 2 anos por lá.  Foi uma experiência bacana? Sim, até que foi pq tive a oportunidade de ser subeditora de Cidade e coordenar as últimas eleições. Mas, sério, dava dó no coração participar das reuniões diárias no aquário. Não existia mais o respeito de outros tempos. Editores não apareciam para trabalhar, chegavam atrasados tal como seus salários. Um descaso. Não havia nem mesmo recursos para que pudéssemos realizar todas as pautas pensadas. Faltavam, como ainda falta, fotógrafos, carros, motorista. Volta e meia faltava também papel higiênico ou seja, não é de hoje que o JB pensa em acabar com o papel (piada infame, admito).

Há um ano saí de lá e, pelos relatos que ouço, as coisas só pioraram. Portanto, se é pra continuar desta forma, melhor fechar. Este mês os repórteres receberam apenas R$ 800. O resto do salário? Só Deus sabe quando vem, se vem. Até hoje não recebi férias, rescisão, nada. Ainda consta na minha carteira de trabalho que sou funcionária do JB. Isso é incrível. Para ser contratada pela empresa que trabalho hoje tive de ir ao Ministério do Trabalho pegar uma autorização. E sou apenas um caso entre centenas. Uma vergonha. Uma tristeza.

Sindicato, Ministério do Trabalho… todos sempre souberam das péssimas condições de trabalho, dos contratos absurdos de prestação de serviço que eram assinados e ninguém fez nada. Lei Trabalhista? Ninguém que trabalha no JB sabe o que é isso. Muito menos Nelson Tanure. Não vejo na imprensa nenhuma matéria que o condene a pagar nada, só a receber. Acho incrível a capacidade que ele tem de fazer dinheiro. Sempres às custas dos outros, claro.

Temo que, a partir de setembro, apenas com sua versão on line, o JB fique ainda pior. Falta uma cabeça pensante de respeito e que respeite os outros. Tomara que os salários não sejam virtuais e que os jornalistas não sejam vistos como tamagochis.

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3 comentários sobre “JB – acabou o papel, e faz tempo

  1. É uma pena, pelo que o nome do JB representa para a imprensa brasileira, mas concordo que pra fazer um jornaleco, como vinha fazendo, com cobertura cada vez mais limitidada, é melhor fechar as portas e “chamar o Alfreeeeeeeedoooooo”.

  2. E ainda tem gente que confunde “não precisar de diploma” com “prescindir de diploma”.

    Eu disse isso por dois motivos: um porque o jornalismo é uma profissão sobre a qual não sei absolutamente nada, mesmo tendo ficado dois anos dando aula de direito pro curso de jornalismo (e eu adorava aqueles alunos). O outro porque eu hoje tenho mesmo essa impressão de que todo mundo acha que pode ser jornalista, e outra impressão: de que os próprios jornalistas (alguns), acham que podem ser qualquer coisa.

    Sem dúvida a realidade tecnológica já veio com tudo e é preciso haver uma adaptação. Depois que inventaram o twitter, parece que nada mais é novidade, mas “verdade” é uma coisa difícil na onda gigantesca de comunicação na internet, e aí é que entra o papel do jornalista.

    Olha, falei um monte, sem saber nada a respeito, e é capaz de você achar meu comentário super idiota, rs, tudo bem, mas eu gostei bastante do seu texto 🙂

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