Interessante…

… esta entrevista com o Flávio Gikovate, no Globo. Concordo plenamente:

– Para o psiquiatra Flávio Gikovate, estamos passando por um momento de grandes mudanças nos relacionamentos afetivos. Os homens estão tendo que aprender a lidar com uma nova mulher. Já elas estão percebendo que praticar o sexo casual pode não ser uma boa ideia. Em seu trigésimo livro, “Sexo” (ed. MG Editores), Gikovate avalia o impacto que os últimos 40 anos tiveram nas relações sexuais e amorosas. Em entrevista ao site do GLOBO, o médico explica como serão os relacionamentos no futuro.

O GLOBO:Homens e mulheres reclamam que não conseguem achar um par e que estão insatisfeitos com as relações amorosas. Por que isso acontece?

FLÁVIO GIKOVATE:Temos evoluído pouco no aspecto sentimental. As pessoas continuam buscando parceiros com os quais não têm afinidades intelectuais, de caráter, projetos e estilo de vida. O erotismo costuma se dirigir na direção da busca de parceiros mais para egoístas, pouco confiáveis e difíceis de provocar envolvimentos de qualidade. Assim, a grande maioria dos casais ainda é constituída por uma criatura mais para generosa e outra mais egoísta. Isso dá um tipo de relação incompleta e que, com os anos, acaba determinando a separação. Os casais se separam pela mesma razão que se casam: as diferenças de temperamento e de caráter. O que funciona bem é o encontro de criaturas afins. Isso já é dito, pois as pessoas falam em “almas gêmeas”, mas na prática o medo da felicidade sentimental as leva a buscar mesmo é a “tampa de sua panela”.

O GLOBO:Você costuma dizer que os homens estão perdidos e não conseguem lidar com a nova mulher. Por quê?

GIKOVATE:Porque as mulheres avançaram muito, ao longo dos últimos 40 anos, nos territórios de poder tradicionalmente masculinos. Avançaram na sua independência econômica, intelectual (hoje são 60% dos estudantes universitários em todo o mundo), ocupando cada vez mais as posições de destaque no chamado espaço público. Ao mesmo tempo, não abriram mão de seus poderes tradicionais. No livro novo escrevo que fizeram tudo isso ao mesmo tempo em que, nas praias, os biquínis só diminuíram. Ou seja, mantiveram – e até mesmo ampliaram – o tradicional poder sensual através de uma liberdade erótica que se manifesta também pela via do exibicionismo e também na forma de expressar a liberdade sexual que só cresceu com o advento da pílula anticoncepcional.

Os homens, que pouco fizeram, afora ficarem perplexos, ao longo desses mesmos 40 anos, estão atônitos e um tanto parados. Estão cada vez mais no computador, preferindo o erotismo que assistem (ou interagem virtualmente). Estão com medo dessa nova mulher mais forte que eles e que, diga-se de passagem, também nem sempre se interessam por aqueles que elas não conseguem admirar como mais competentes que elas. Estamos numa encruzilhada.

O GLOBO:O que impede as mulheres de aproveitarem plenamente a vida sexual?

GIKOVATE:É preciso entender o que significa o pleno exercício da sexualidade. As mulheres têm uma fisiologia sexual diferente da masculina e elas devem saber que, após o orgasmo, a regra é que sobra uma excitação residual. Isso faz com que o sexo casual não lhes apareça como tão interessante, assim como a masturbação. Cerca de 50% das mulheres não se interessam pela masturbação justamente porque podem terminar a prática mais excitadas do que começaram, ao contrário dos homens que se sentem relaxados e sonolentos. Elas preferem mesmo é o sexo com um parceiro fixo e conhecido, com quem possam negociar aquilo que mais gostam. A maior parte das mulheres aproveita plenamente o sexo quando conhece seu próprio corpo, tem um parceiro estável (que não obrigatoriamente é objeto de grande envolvimento emocional, mas é alguém conhecido e com quem ela goste de estar também fora da situação erótica) e que saiba como agradá-la, e que seja uma pessoa que não use o sexo apenas como instrumento de sedução e poder, mas sim também como fonte de curtição e prazer.

O GLOBO:Como um casal pode preservar a vida sexual e não cair no tédio comum que acontece com o passar dos anos?

GIKOVATE:Não é fácil e depende muito de entenderem que o sexo e o amor não são parte do mesmo instinto. Têm que compreender que o sexo tem suas peculiaridades, que compete com a ternura e que tem que ser tratado como parte de um instinto mais vulgar e grosseiro. Assim, na hora do sexo é importante abandonar o contexto mais sentimental e buscar um outro clima, mais voltado para a “baixaria”. Além disso, é preciso entender que o desejo visual masculino tende a se esgotar diante de uma mesma parceira ao longo dos anos. É função do homem e também da mulher trabalhar para que a sexualidade se mantenha viva e gratificante num clima que nem sempre lhe é propícia, o da estabilidade e do amor. O sexo se abastece mais facilmente do jogo de sedução e conquista. É mais difícil desejar alguém em que confiamos e sabemos dos sentimentos e da lealdade em relação a nós. Mas é possível e existem inúmeros casais que atestam isso. São minoria, mas existem. E se existem é porque é possível!

O GLOBO:As mulheres ainda são julgadas quando dizem que gostam ou só querem sexo?

GIKOVATE:Acho que isso é válido para muitos homens, mas não para todos. Agora, se elas quiserem se relacionar justamente com os mais legais, devem saber que esses não dão a menor bola para isso. Apenas irão ou não se interessar por elas por força de muitas outras propriedades e não por força de suas habilidades sexuais.

O GLOBO:Como você vê os relacionamentos amorosos no futuro?

GIKOVATE:Ou existirão relacionamentos afetivos de ótima qualidade, onde os casais aprenderão a desenvolver uma vida sexual igualmente rica, ou então existirão pessoas solteiras, vivendo o sexo como fenômeno pessoal e/ou mantendo relacionamentos afetivos mais superficiais e passageiros. Não vejo futuro para as relações de qualidade média. É assim: a vida a dois terá que ser melhor do que o viver só. Como viver só está cada vez melhor, todos os relacionamentos que forem de qualidade inferior a essa vida tenderão a desaparecer.

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