Super me identifiquei com algumas ideias explicitadas numa entrevista da Marie Claire. Vcs não concordam comigo?

Elizabeth Gilbert, autora de ‘Comer, Rezar, Amar’, fala sobre amor e casamento em entrevista

Por Ann Patchett

Editora Globo

Depois de enfrentar um divórcio traumático e perder todos os bens para o ex-marido, Elizabeth Gilbert, 41 anos, rodou o mundo em busca de conforto. A jornada, além de autoconhecimento, rendeu à escritora americana dois grandes legados. O primeiro: o best-seller “Comer, rezar, amar”, único de seus cinco livros a ser traduzido para 30 idiomas e a ganhar as telas do cinema. O segundo: um brasileiro 17 anos mais velho por quem Liz se apaixonou e se casou quase obrigada pela imigração dos EUA. No livro “Comprometida: uma história de amor”, recém-lançado no Brasil, a autora fala sobre traumas, mistérios e desafios do casamento.

Parte dessas reflexões, você confere no bate-papo da escritora com a amiga Ann Patchett*: Elizabeth Gilbert e eu nos conhecemos anos atrás, quando fiz uma palestra para um grupo de bibliotecários. O que começou como admiração mútua rapidamente se transformou em amizade. Apesar de ela morar em New Jersey e eu em Nashville, no estado do Tennessee [mais a oeste dos Estados Unidos], trocamos cartas enormes (à moda antiga, com envelopes e selos) e aproveitamos cada uma das ocasiões em que nos encontramos.

Recentemente fui convidada para um debate em uma livraria de Connecticut e, por sugestão de Liz, peguei um avião uma noite antes. Ela aproveitou que uma de suas amigas da cidade estava viajando para pedir o apartamento emprestado e nos encontramos para um jantar seguido de uma deliciosa “festa do pijama”, com direito à companhia de seu golden retriever Rocky. Na ocasião, tive a sorte de ler seu novo livro, “Comprometida: uma história de amor” [recém-lançado no Brasil pela editora Objetiva], quando ele ainda era apenas uma pilha de papel.

Não somente li, como ajudei Liz a moldar o produto final, insistindo para que ela incluísse a palavra “paquiderme” cada vez que se referia aos elefantes. Ao fazê-lo, creio ter deixado minha marca na grandiosidade de sua obra. A entrevista que você lerá a seguir aconteceu durante essa troca de ideias entre duas amigas e, como Liz também é uma adepta da multitarefa, foi feita a quatro mãos (eu redigi as perguntas e ela — melhor digitadora do que eu — fez as respostas). Vestindo nossos pijamas e passando meu laptop de uma para a outra, Liz e eu redigimos praticamente um tratado sobre o casamento. Material não faltou, já que a união dela com Felipe [na verdade, um gaúcho da cidade de Redentora chamado José Lauro Nunes] está completando dois anos e o meu casamento, cinco.

Ann Patchett Liz, o casamento é uma instituição que vai sobreviver?

Elizabeth Gilbert É uma instituição com capacidade darwiniana de sobrevivência. Ele se modifica da maneira necessária para continuar sendo relevante e útil na vida das pessoas. É um camaleão, capaz de se adaptar para sua preservação. Mesmo depois que os seres humanos tiverem desaparecido, o casamento continuará existindo. O que eu mais aprendi ao escrever “Comprometida: uma história de amor” foi ter um respeito profundo pelo casamento. Não só pela relação que construímos com quem amamos, mas por toda a lógica em torno dela. Repare como os casais, ao buscar intimidade, traçam círculos de privacidade ao seu redor. Casais se protegem buscando amigos, parentes e vizinhos que respeitem e admirem sua união. E é por isso que o casamento continua sendo cultuado e existindo.

AP Como você analisa as opções de casamento na sociedade moderna? Há a união estável, os acordos pré-nupciais, a comunhão de bens…

EG Muita gente olha torto para os casamentos pré-acordados. Mas a ideia é que os casais possam escolher entre uma “união light”, com uma opção mais fácil de divórcio, e o clássico “casamento para a vida toda”, com as algemas eternas. Mesmo no auge da paixão, precisamos encarar que o futuro é um mistério. Por isso, é melhor manter as opções abertas, para o caso de a união não durar, do que se forçar a ficar amarrado a ela. Eu, que no segundo casamento fiz questão de optar por um acordo pré-nupcial, posso afirmar que mapear a estratégia de saída antes de entrar na união também é um ato de amor. Assim, a gente garante que não haverá uma terceira guerra mundial caso os corações e as mentes deixem de se entender.

“O casamento não foi feito para os jovens. Éle é um exercício de contradições e decepções que exige maturidade para ensinar a amar”

AP Mas então qual é a vantagem da união no papel? O que é o casamento, se ele não for para sempre? O que, afinal, nos separa de Britney Spears [que casa e descasa]?

EG Ah! Ann, Ann, Ann! Não me obrigue a fazer uma lista de atributos que nos separa de Britney. O casamento é uma estranha combinação de sonho e realidade, e nós passamos a vida de casal tentando negociar a separação entre essas duas coisas. Moral da história: o casamento não é um jogo para jovens. O que Britney nos ensina é: não se case com 20 anos. A maturidade traz, entre outras coisas, a capacidade de suportar e sobreviver a enormes contradições e decepções. E casamento, entre outras coisas, é justamente um estudo de contradições e decepções, que nos ensina a amar de verdade, com todas as concessões que isso implica. Por isso, aconselho os jovens a checar a viabilidade de, pelo menos, alguns aspectos desse sonhos antes de entrar pela porta da igreja.

AP Muitas pessoas confundem a cerimônia com o casamento e, depois do grande dia, se desapontam com a realidade da vida a dois. Por que você acha que isso acontece?

EG Essa é uma armadilha que atinge especialmente as mulheres — sobretudo as mais jovens e românticas. Nunca me encantei pelo sonho de casar de branco ou pela ideia de que o grande dia deveria ser “o mais feliz” da minha vida. Mas perguntei a várias amigas minhas solteiras sobre essa questão e uma delas me deu uma resposta verdadeira e esclarecedora: a fantasia do dia do casamento é a de que ele representa a inegável verdade pública de que você foi escolhida. Então, durante esse dia, você é a criatura mais valiosa do mundo — um tesouro, uma princesa, um prêmio. Para muitas mulheres, que nunca se sentiram escolhidas, desejadas ou preciosas, esse é um sonho inabalável. E temo que muitas delas prefiram a cerimônia ao casamento em si. Parece um preço alto a pagar, mas ele vem de um profundo e triste desejo de ser amada e ganhar uma prova de que se é valiosa.

AP Será que não existe nada bom nessa celebração pública do afeto?

EG Sim, desculpe! É claro, que existe. A reunião familiar é geralmente emocionante e as danças na pista, divertidas. Alguém teria de ser um idiota para não gostar de ver todas aquelas pessoas bem-vestidas, arrumadas. Também há a importância da cerimônia e do ritual, que todos os seres humanos desejam e precisam: a troca de votos em público mostra para toda a tribo que a situação desse casal mudou, que aqueles dois fizeram a transição para uma nova fase da vida. Eu acho tudo isso bonito. O que sou contra é o hiperfetiche do dia do casamento e a supervalorização da cerimônia em detrimento da união real entre duas pessoas. Em outras palavras: tenho um verdadeiro problema com casais que gastam muito mais tempo discutindo a disposição dos lugares nas mesas ou a cor dos vestidos das madrinhas do que esmiuçando seus sentimentos e questões importantes como casa, filhos, finanças e fidelidade nas próximas quatro ou cinco décadas.

AP Como você explica a queda dos índices de casamento na Europa?

EG Hum, boa pergunta! Achei que você não soubesse disso. Pensei que entendesse apenas sobre o casamento nos EUA.

AP Mas seu livro não é sobre o casamento americano. É sobre o casamento global, não?

EG Ele discute o casamento global, mas deixa de fora continentes inteiros e grandes pedaços da humanidade. É um livro sobre meus esforços para encontrar um canto da história do matrimônio em que eu me sentisse minimamente confortável. Por isso acaba sendo sob uma perspectiva americana. Os europeus, principalmente os do norte, não compartilham da nossa reverência cultural pelo casamento. Na Suécia ou na Alemanha, o que importa é a família. Aqui, nos EUA, é o casal. Por isso, os homossexuais europeus custam a compreender por que os homossexuais americanos lutam tanto pelo direito de se casar: eles são perfeitamente felizes apenas por se amar e ter os mesmos direitos civis, sem a necessidade do casamento. Mas, aqui nos EUA, o casamento tem um poder místico, intangível: é um passaporte para a idade adulta, para a respeitabilidade e, em certa medida, para a cidadania. Qualquer relacionamento ou estado civil que não seja o “casado” é considerado indigno. As pessoas olham torto.

AP Agora que você está casada, como analisa essa carga toda?

EG Você não sente ou entende isso até que viva. Eu me mudei para uma pequena cidade no estado de New Jersey com meu marido, e o fato de poder apresentá-lo como “marido” — e não namorado, noivo ou, Deus me livre, parceiro — significa que somos automaticamente confiáveis, bem-vindos e legítimos. Nosso casamento [uma imposição da imigração americana para que o brasileiro pudesse permanecer nos EUA] foi um enorme atalho para a respeitabilidade social. Eu e Felipe somos rebeldes e impacientes o suficiente, e teríamos dispensado esses benefícios, mas, agora que os temos, eles nos dão um poder inegável.

“É mais fácil elegermos um presidente negro ou mulher do que uma pessoa solteira. Na nossa sociedade, ser feliz sozinho gera desconfiança”

AP Eu, que namorei meu marido durante 11 anos e não queria me casar para não ter de assumir a facilidade dessa aceitação social nem cair no conformismo dos relacionamentos duradouros, preciso lhe perguntar se você vê algum lado negativo em aceitar essa imposição social.

EG Acho que infelizmente só existe um caminho nos EUA para completar a legitimidade social, e é o casamento. Seria muito mais fácil os americanos elegerem um presidente negro ou uma presidente mulher do que um presidente solteiro. A solteirice pareceria motivo para desconfiança. O que significa que existe, sim, uma pressão maciça para que as pessoas se casem. Isso só mostra por que os americanos se casam mais — e, infelizmente, se divorciam mais — do que qualquer outro povo do mundo industrializado. Portanto, o lado negativo dessa pressão é que existe uma corrida para o altar — em busca dessa insígnia de respeito instantâneo —, quando na verdade não estamos prontos ou maduros o suficiente para realmente assumir esse compromisso.

Editora Globo 

Comprometida: a autora com o marido, o brasileiro “Felipe”

AP Agora que todo o seu trabalho está pronto e o seu quinto livro escrito, o que você acha que realmente constitui o estado do casamento?

EG Bem, o casamento mudou ao longo dos séculos. No mundo antigo, era uma união tribal, um meio de legitimar herdeiros e construir dinastias familiares. No mundo medieval, o casamento era um laço econômico, um meio de transmitir a riqueza de uma geração para a seguinte. No auge do poder da Igreja Católica, o casamento era um laço religioso, um contrato indissolúvel com Deus. Durante a Revolução Industrial, com a ascensão da prosperidade em todo o mundo ocidental, o casamento finalmente adquiriu o luxo de se tornar uma união por amor, uma expressão de opção individual. Hoje o casamento é uma curiosa mistura de tudo isso. É principalmente uma união romântica e privativa, mas sujeita às leis de impostos e de herança, com algumas implicações religiosas. É como se nós continuássemos construindo nossos valores em cima desse status, empilhando novos avanços sobre o antigo modelo. Toda a engenharia original continua lá, por baixo de tudo. Quer tenhamos consciência ou não, carregamos para nossos casamentos modernos as expectativas e a memória social de milhares de anos de história. Nós modificamos e personalizamos a coisa a cada século, a cada geração, a cada dia — tanto nos tribunais quanto em nossas próprias casas. E o casamento aceita nossas modificações graciosamente. O casamento se adapta, evolui e (de uma maneira que eu acho milagrosa e inspiradora) continua avançando.

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