Sobre relacionamentos

Vocês sabem que sou fã da Eliane Brum e dos textos que ela publica no site da Época. De uns meses pra ca fiquei também fã do Ivan Martins. Ele tem um jeito muito peculiar, doce, elaborado para tratar sobre o relacionamento homem-mulher. A coluna de hoje está bem gostosa. E concordo com ele. Não custa cedermos em alguns pontos para garantir o sucesso dos relacionamentos, mas não ceder para agradar. É preciso ceder por prazer. Isso mesmo, é preciso gostar de estar com o outro, curtir as coisas que o outro também curte e fazer tudo isso sem se violentar. Ninguém precisa abrir mão do jogo de futebol das quartas, né.
Boa leitura:
 

O motor das relações

IVAN MARTINS
É editor-executivo de ÉPOCA

Sexta-feira passada eu acordei antes das 6 da manhã para ver o casamento do príncipe William. Era trabalho, mas não foi um sacrifício. Preparei chocolate quente, sentei no sofá e fiquei assistindo, divertido. Eu e 2,5 bilhões de pessoas. O republicano que há em mim não deu sinal de vida, assim como o socialista que detesta hierarquias hereditárias. Curti o espetáculo sem culpa. Até um pouco comovido, confesso.

Dez anos atrás isso não seria possível. Eu teria feito questão de não assistir à transmissão e, se me perguntassem sobre o assunto, diria meia dúzia de sarcasmos sobre a realeza e seu público. Meus comentários seriam perfeitamente pertinentes, mas falhariam em remover o interesse das pessoas pelo casamento. Talvez ocultassem minha própria curiosidade. De qualquer forma, me privariam de conversas interessantes sobre a cerimônia, sobre os fundamentos das afinidades amorosas e sobre o mundo estranho e artificial em que vivem famílias nobres como os Windsor. Sobretudo com a minha namorada.

Uma das virtudes subestimadas das relações heterossexuais é que elas permitem contato com os sentimentos e interesses do outro sexo. Isso quer dizer a outra metade da humanidade. Uma mulher, uma namorada, mesmo uma amiga – se for próxima – nos tira das obsessões masculinas e nos põe em contato carnal com um universo diferente.

Esta semana, por exemplo, eu e meus amigos só temos discutido duas coisas nas redes sociais: o jogo entre Palmeiras e Corinthians e a morte de Bin Laden. Há uma ou outra mulher nessas conversas, mas elas são predominantemente masculinas. Na hierarquia do debate das ideias, Bin Laden parece mais importante do que a princesa Kate. Na verdade, não é. Equivale, em termos retóricos, a discutir Palmeiras versus Corinthians. Tem pelo menos a mesma função simbólica: confrontar o clã do outro, medir o tamanho do pau, avançar nada ou quase nada em esclarecimento e conclusões.

Essas situações reafirmam para mim a importância de conviver de perto com a diferença. Houve um tempo, no passado, em que me parecia desejável que as mulheres fossem parecidas com seus homens. Tentei e concluí que não funciona. Desde então, percebo que as mulheres que contam não se enrolam necessariamente nas minhas bandeiras. Com algumas concordâncias essenciais de ideologias e valores, elas têm universo próprio de interesses que as tornam mais atraentes. Pode ser música, casa, família, comida, beleza, moda, cavalos, cachorros. Pode ser amigos que nada têm a ver com os meus. O importante é haver troca. Em vez de ser um problema, a diferença é o motor da relação.

Uma história miúda para ilustrar. Outro dia eu fui com a namorada comprar sapatos para ela. É outro universo. Não há só marrom, preto e dois modelos básicos, com e sem cadarço. São 30 cores e 30 modelos. A escolha pode levar horas. Como era uma loja bacana, na tarde de sábado, sentei num banco do quintal e fiquei lendo. Me deram até uma taça de champagne. De quando em quando, aparecia a namorada e me mostrava o pezinho. Um modelo mais bonito que o outro. Eu não conseguiria escolher, mas ela, afinal, escolheu. E não foi chato estar com ela. Foi bom.

Dito isso, acho que os homens têm um pouco de medo do convívio com o feminino, sobretudo nessas formas simbólicas e caricatas. É como se a masculinidade fosse um verniz vulnerável à delicadeza das mulheres. Algo que pudesse ser contaminado ou corroído pelo contato. Na falta de uma definição moderna e não biológica para o que é ser homem, a gente se apega aos aspectos exteriores da função. Meio bestamente, eu acho. Como eu disse no início, uma das vantagens de ser hetero é conviver intimamente com a diferença. É aprender com ela. Aprender, por exemplo, que o casamento do príncipe pode ser tocante. E que comprar sapatos pode ser a coisa mais gostosa do mundo – desde que o seu time não esteja em campo…

(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

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