Perfeito, mais uma vez

O amor bom é facinho

IVAN MARTINS
É editor-executivo de ÉPOCA

Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho – esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade?

Eu suspeito que não.

Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói.

Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade de lutadores, não somos? Temos de nos esforçar para obter recompensas. As coisas que realmente valem a pena são obtidas à duras penas. E por aí vai. De tanto ouvir essa conversa – na escola, no esporte, no escritório – levamos seus pressupostos para a vida afetiva. Acabamos acreditando que também no terreno do afeto deveríamos ser capazes de lutar, sofrer e triunfar. Precisamos de conquistas épicas para contar no jantar de domingo. Se for fácil demais, não vale. Amor assim não tem graça, diz um amigo meu. Será mesmo?

Minha experiência sugere o contrário.

Desde a adolescência, e no transcorrer da vida adulta, todas as mulheres importantes me caíram do céu. A moça que vomitou no meu pé na festa do centro acadêmico e me levou para dormir na sala da casa dela. Casamos. A garota de olhos tristes que eu conheci na porta do cinema e meia hora depois tomava o meu sorvete. Quase casamos? A mulher cujo nome eu perguntei na lanchonete do trabalho e 24 horas depois me chamou para uma festa. A menina do interior que resolveu dançar comigo num impulso. Nenhuma delas foi seduzida, conquistada ou convencida a gostar de mim. Elas tomaram a iniciativa – ou retribuíram sem hesitar a atenção que eu dei a elas.

Toda vez que eu insisti com quem não estava interessada deu errado. Toda vez que tentei escalar o muro da indiferença foi inútil. Ou descobri que do outro lado não havia nada. Na minha experiência, amor é um território em que coragem e a iniciativa são premiadas, mas empenho, persistência e determinação nunca trouxeram resultado.

Relato essa experiência para discutir uma questão que me parece da maior gravidade: o quanto deveríamos insistir em obter a atenção de uma pessoa que não parece retribuir os nossos sentimos?

Quem está emocionalmente disponível lida com esse tipo de dilema o tempo todo. Você conhece a figura, acha bacana, liga uns dias depois e ela não atende e nem liga de volta. O que fazer? Você sai com a pessoa, acha ela o máximo, tenta um segundo encontro e ela reluta em marcar a data. Como proceder a partir daí? Você começou uma relação, está se apaixonando, mas a outra parte, um belo dia, deixa de retornar seus telefonemas. O que se faz? Você está apaixonado ou apaixonada, levou um pé na bunda e mal consegue respirar. É o caso de tentar reconquistar ou seria melhor proteger-se e ajudar o sentimento a morrer?

Todas essas situações conduzem à mesma escolha: insistir ou desistir?

Quem acha que o amor é um campo de batalha geralmente opta pela insistência. Quem acha que ele é uma ocorrência espontânea tende a escolher a desistência (embora isso pareça feio). Na prática, como não temos 100% de certeza sobre as coisas, e como não nos controlamos 100%, oscilamos entre uma e outra posição, ao sabor das circunstâncias e do tamanho do envolvimento. Mas a maioria de nós, mesmo de forma inconsciente, traça um limite para o quanto se empenhar (ou rastejar) num caso desses. Quem não tem limites sofre além da conta – e frequentemente faz papel de bobo, com resultados pífios.

Uma das minhas teorias favoritas é que mesmo que a pessoa ceda a um assédio longo e custoso a relação estará envenenada. Pela simples razão de que ninguém é esnobado por muito tempo ou de forma muito ostensiva sem desenvolver ressentimentos. E ressentimentos não se dissipam. Eles ficam e cobram um preço. Cedo ou tarde a conta chega. E o tipo de personalidade que insiste demais numa conquista pode estar movida por motivos errados: o interesse é pela pessoa ou pela dificuldade? É um caso de amor ou de amor próprio?

Ser amado de graça, por outro lado, não tem preço. É a homenagem mais bacana que uma pessoa pode nos fazer. Você está ali, na vida (no trabalho, na balada, nas férias, no churrasco, na casa do amigo) e a pessoa simplesmente gosta de você. Ou você se aproxima com uma conversa fiada e ela recebe esse gesto de braços abertos. O que pode ser melhor do que isso? O que pode ser melhor do que ser gostado por aquilo que se é – sem truques, sem jogos de sedução, sem premeditações? Neste momento eu não consigo me lembrar de nada.

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Música do Dia 2

Fico Assim Sem Você

Avião sem asa, fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola,
Piu-Piu sem Frajola
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
vão poder falar por mim

Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem amasso
Sou eu assim sem você

Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas
Pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

Por quê? Por quê?

Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
vão poder falar por mim

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo (2x)

Música do Dia

O Meu Amor- Chico Buarque

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

incrível

Graças ao twitter conheci o blog Saturnália, do João (@acuio). Desde então, quase todos os dias passo lá para ver como ele analisa os trânsitos astrais. O de hj me impressiona e me dá esperanças:

Dia 27 de junho de 2011, a Lua transita por Touro. Míngua, coitadinha, num signo glutão. Lua em Touro faz com que a gente tenha que fazer apesar do frio, do apego, da crise na Líbia. Mova-se, carro-de-boi! O Sol, por sua vez, caminha para ter com Plutão. Nos próximos dias, idas, partidas, sentenças definitivas. Boa semana produtiva, Saturnálicos

Perfeito

Perfeito o texto de Eliane Brum sobre o filme de Woody Allen – “Meia-Noite em Paris”. Assisti ontem e assistiria de novo, sem dúvida.

Nunca estamos onde queremos

Depois de alguns minutos, o novo filme de Woody Allen – “Meia-Noite em Paris” – nos provoca um delicioso sorriso bobo, que permanece até o final. O diretor no presenteia com uma história de Cinderela para adultos. À meia-noite, o protagonista embarca em um calhambeque tinindo de novo e pronto, está onde sempre quis estar: na animada Paris dos Anos 20. Gil Pender, como boa parte de nós, acha o presente insuficiente. O passado era melhor. Não qualquer passado, mas o idealizado por ele. Como uma fada madrinha do nosso tempo, Woody Allen realiza, com essa varinha de condão que é o cinema, o desejo que é de todos. E por isso abrimos um sorriso encantado. Me convenci a dar uma espiada para o lado e para trás e vi no público a mesma boca aberta de antecipação e deleite das crianças quando escutam um conto de fadas. Desde o surgimento do calhambeque, a gente já sabe o que vai acontecer. É porque queremos muito que aconteça que é tão prazeroso. Como as crianças que pedem para repetir mil vezes a mesma história, a gente tem vontade de gritar: “De novo! De novo!”. A identificação com o protagonista é imediata. O ator Owen Wilson vive Gil Pender, mas, ao mesmo tempo, encarna Woody Allen com tanta competência, que às vezes enxergamos o próprio. No filme, ele é um roteirista de Hollywood que tenta escrever um romance enquanto visita Paris com uma noiva mimada e um casal de sogros tão digestivos quanto óleo de rícino. Os personagens são todos estereotipados como num bom conto de fadas. A noiva é uma típica menina rica, fútil e ambiciosa, mais preocupada com a aparência da vida e dela mesma do que com a vida em si. Os sogros são americanos bem sucedidos, republicanos do Tea Party, com todos aqueles valores que conhecemos melhor ao acompanharmos a trajetória de Sarah Palin. Ao chegarem a Paris, a noiva encontra um casal de amigos. Ele, um homem pelo qual já foi apaixonada, é também um personagem comum do nosso tempo: um especialista em tudo, de vinhos a Rodin. E, desde o início do filme, o detestamos como se deve fazer com um bom vilão que não causa mais mal do que abusar da nossa paciência e da de Gil com seu pedantismo e seu conhecimento de Wikipedia, programado para impressionar um certo tipo de moça. Já Gil, nosso herói, é doce, sensível e com aquele ar meio perdido de quem quer muito ir, mas não sabe direito para onde. Também um personagem clichê da nossa época. Nesta escolha dos personagens, há algo interessante que podemos pensar. Esses dois estereótipos masculinos representam em parte a confusão do que significa ser homem hoje em dia. Ambos inseguros depois do naufrágio do papel masculino definido por uma tradição que já não existe. Mas com respostas diferentes para a questão. E, como a mulher deste milênio, a noiva também oscila entre esses dois homens sem saber bem se quer aquele que sabe tudo sem saber (e que jamais saberá qualquer coisa porque não tem planos de parar de fingir) – ou deseja aquele que admite que não sabe, mas um dia talvez possa descobrir porque procura. Esta não é a questão principal do filme, mas Woody Allen sempre foi hábil em falar da (bendita) confusão dos papéis masculinos (e femininos) de nossos dias – e seu conto de fadas não poderia ser diferente. O dilema central de nosso Cinderelo é que ele queria viver onde não vive. Gil Pender desembarca na cidade dos seus sonhos – e Woody Allen também nos dá, desde o início, uma Paris de cartão postal, com direito a própria Carla Bruni interpretando uma guia turística. Mas Gil está acompanhado pela noiva fútil, os sogros fúteis, o casal de amigos fúteis e fazendo coisas fúteis com todos eles. Preso, portanto, a um presente que não quer, mas que não tem forças para mudar. Como acontece com boa parte de nós aqui, em nossa vida cotidiana – e também em férias idealizadas das quais voltamos com fotos em que estamos sorridentes, sobre as quais contamos maravilhas para os amigos e parentes, mas secretamente sabemos que não foram tão perfeitas assim. Então, à meia-noite, num determinado lugar, a carruagem passa e o carrega para a Paris que deseja. E Gil Pender encontra, entre outros personagens fascinantes que se reuniram em Paris nos Anos 20, Zelda e Scott Fitzgerald, Cole Porter, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel. E consegue dar seu romance para a própria Gertrude Stein avaliar. Todos esses personagens reais que fizeram a efervescência e a lenda dos (pelo menos para nós e para Gil Pender) gloriosos Anos 20 estão lá não como são – mas como nosso Cinderelo os vê. É o passado idealizado por ele – não o passado como foi para quem o viveu. Só assim, afinal, é possível ter um conto de fadas. Posso contar tudo isso aqui porque, como nas fábulas, não importa o que acontece, importa que tenhamos certeza que acontece. Por isso as crianças querem ouvir a história tantas vezes e viver seus medos protegidas pela segurança do enredo conhecido. Depois dos primeiros 15 minutos de filme, sabemos o que Woody Allen vai nos dar. E então é só a delícia de assistir ao desenrolar dos fatos que já antecipamos. Mas Woody Allen nos trai com uma personagem clandestina, que não faz parte do roteiro das fábulas – a mulher comum. Aquela que esteve na história, mas não foi registrada nela. Aquela que não sobreviveu à morte como memória. É a partir das inquietações dela, que em determinado momento torna-se o espelho dele, que Gil Pender tem de fazer uma opção que é a de todos nós: entre o tempo que não há e o tempo que há. Ele precisa fazê-la na prática. Nós temos de fazê-la dentro de nós, como uma escolha interna que determina todo o enredo da história que é nossa. Gil Pender, nosso Cinderelo, coloca o impasse entre a idealização da vida e a vida como ela é com uma das sacadas geniais que fazem Woody Allen ser quem é: “Você se dá conta que esses caras vivem sem anestesia nem antibiótico?”. A frase é bem melhor do que esta, mas eu não tinha nenhum bloquinho para anotar. É quando o homem que procura encontra algo – e descobre que precisa fazer uma escolha se quiser viver onde está – não importa se na Paris dos Anos 20, na Paris da Belle Époque ou na Paris de hoje. Para quem o viveu, o passado era presente. Assim como não há passado, só presente – não há vida idealizada, só vida. É com essa vida, no presente, que temos de fazer o melhor que pudermos, mesmo que sempre nos pareça insuficiente. Para, quando chegar ao final que sempre chega, termos a chance de concluir: “Que pena que acabou. Mas vivi, não tudo o que quis, mas o melhor que pude”. E só dá para ter certeza de que fizemos o melhor possível com nossa vida imperfeita quando temos a coragem de fazer escolhas. Que, inclusive, podem dar errado – e muitas vezes dão. Mas também podem dar certo, ou dar errado dando certo de um jeito que não sabíamos que existia. Do contrário, vamos ficar fingindo que conhecemos o enredo, como o chato da história, e ninguém encontra nada sem se arriscar ao vazio e às perguntas difíceis, com respostas às vezes indigestas. Não há final feliz – o final é sempre a morte, como nos repetiram tantos poetas. O que temos é o presente possível para experimentar por tentativa e erro. As grandes questões da existência, afinal, são sempre as mesmas – e é para nos lembrar disso que servem os contos de fadas. “Meia-noite em Paris” é um dos bons.

Acabado.

Pronto. Está tudo acabado. Estou falando do livro “Um dia”, que já comentei aqui. Cheguei a última linha, ao ponto finale, confesso, ficou uma saudade. SAudade do que? Do que vivi, do que não vivi, do que nunca viverei. Saudade é mesmo uma palavra estrana, talvez por isso só exista no português.

O livro é ótimo e mal vejo a hora de emprestar para minha amiga Karla Rubia. Acredito que, assim como aconteceu comigo e com a Luciana, a Karlinha também vai se apaixonar por Emma e Dexter, vai sentir raiva de algum deles em determinados capítulos, vai se identificar com alguns diálogos e, certeza, vai até mesmo chorar… o livro é romance na veia, puro romance, uma história de amor quase perfeita. Friso o quase porque acredito que não existam histórias de amores perfeitas.

Bem, nunca vivi uma, nunca conheci ninguém que tenha vivido. Mas ok, sem  problemas. Na verdade acho ótima esta imperfeição. A vida certinha é um saco e um amor certinho, perfeito, também deve ser. Enfim, se puder, leia.

Em que esquina dobrei errado?

Em agosto do ano passado, a Martha Medeiros publicou uma coluna na Revista O Globo que me tocou. Gostei tanto que recortei a página do jornal e colei na minha estação de trabalho. PHoje achei interessante publicá-la aqui novamente. Uma leitura importante. Segue:

Em que esquina dobrei errado?

Aconteceu em Paris. Estava sozinha e tinha duas horas livres antes de chamar o táxi que me levaria ao aeroporto, de onde embarcaria de volta para o Brasil. Mala fechada, resolvi gastar esse par de horas caminhando até a Place des Voges, que era perto do hotel. Depois de chuvas torrenciais, fazia sol na minha última manhã na cidade, então Place des Voges, lá vou eu. E fui.

Sem um mapa à mão, tinha certeza de que acertaria o caminho, não era minha primeira vez na cidade. Mas por um desatino do meu senso de orientação, dobrei errado numa esquina. Em vez de ir para a esquerda, entrei à direita. Mais adiante, aí sim, virei à esquerda, mas não encontrei nenhuma referência do que desejava. Segui reto: estaria a Place des Voges logo em frente? Mais umas quadras, esquerda de novo. Gozado, era por aqui, eu pensava. Não que fosse um sacrifício se perder em Paris, mas eu parecia estar mais longe do hotel do que era conveniente. Mais caminhada, e então, várias quadras adiante, não foi a Place des Voges que surgiu, e sim a Place de la Republique. Eu tinha atravessado uns três bairros de Paris, mon Dieu.

Perguntei a um morador o caminho mais curto para voltar à rua onde ficava meu hotel, e ele me apontou um táxi. Teimosa, pensei: ainda tenho um tempinho, voltarei a pé. E assim foram minhas duas últimas horas em Paris, uma estabanada andando às pressas, saltando as poças da noite anterior, olhando aflita para o relógio em vez de flanar como a cidade pede. Cheguei bufando no hotel, peguei minha mala e, por causa da correria, esqueci no hall de entrada uma gravura linda que havia comprado e que planejava trazer em mãos no voo. Tudo por causa de uma esquina que dobrei errado.

Foram apenas duas horas inúteis e cansativas, e duas horas não é nada na vida de ninguém. Mas quanta gente perde a vida que almejou por ter virado numa esquina que não conduzia a lugar algum?

Alguns desacertos pelo caminho fazem a gente perder três anos da nossa juventude, fazem a gente perder uma oportunidade profissional, fazem a gente perder um amor, fazem a gente perder uma chance de evoluir. Por desorientação, vamos parar no lado oposto de onde nos aguardava uma área de conforto, onde encontraríamos pessoas afetivas e uma felicidade não de cinema, mas real. Por sair em desatino sem a humildade de pedir informação a quem conhece bem o trajeto ou de consultar um mapa, gastamos sola de sapato à toa e um tempo que ninguém tem para esbanjar. Se a vida fosse férias em Paris, perder-se poderia resultar apenas numa aventura, mesmo com o risco de o avião partir sem nós. Mas a vida não é férias em Paris, e aí um dia a gente se olha no espelho e enxerga um rosto envelhecido e amargurado, um rosto de quem não realizou o que desejava, não alcançou suas metas, perdeu o rumo: não consegue voltar para o início, para os seus amores, para as suas verdades, para o que deixou pra trás. Não existe GPS que assegure se estamos no caminho certo. Só nos resta prestar mais atenção.

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Perfeito, não? Por isso que curto os textos da Martha. Em poucas linhas ela conseguiu detalhar uma das minhas angústias: estou no caminho certo? Devo seguir adiante ? dobrar para a direita? para a esquerda? ficar parada? Ó céus !!!!

Outra coluna do Ivan

Então, mais uma vezo Ivan Martins escreve em sua coluna na ÉPOCA sobre algo com que muito me identifico. Vejam:

O monstro da separação

Antes de escrever esta coluna eu prometi a mim mesmo que veria Blue Valentine, lançado no Brasil com o título besta de Namorados para sempre. Prometi, mas não fiz. Tudo o que li sugere que o filme é um retrato demasiadamente fiel de dois momentos cruciais da relação amorosa, o começo jubiloso e o fim horrendo. Quem viu o filme diz que dói. Eu, que assim como vocês já tive a minha cota de separações, e ainda mais, ainda não reuni coragem para me ver em cena. E talvez não reúna.

Mesmo de longe, Blue Valentine me fez lembrar do monstro que aparece quando as relações começam a acabar. Ele se manifesta por insultos e violência verbal, no início. Indiferença e sarcasmo, depois. É preciso ter atravessado um túnel desses para perceber que as brigas, ainda que assustadoras, representam uma tentativa de aproximação. Elas são o derradeiro gesto de carinho. Os gritos parecem uma forma exasperada de perguntar, afinal, o que aconteceu com o amor que havia aqui? A indiferença entra em cena quando ninguém mais está interessado na resposta.

De um jeito ou de outro, o monstro está lá.

Se ele grita e quebra pratos, ou cala, ainda é ele, cascudo e áspero por fora, uma bola sangrenta e dolorosa por dentro. O monstro da separação se parece imensamente com a pessoa que a gente amava, mas, ao contrário dela, parece ter vindo ao mundo com a missão explícita de nos fazer sofrer, de forma cruel e variada. A pior delas é a confusão. Às vezes, o monstro sorri de uma maneira tão parecida ao antigo objeto do nosso amor que é impossível não se derreter por ele. Mas, um segundo depois, o monstro faz um comentário gelado que deixa clara a sua natureza de réptil. Nossos sentimentos oscilam como pêndulo entre um momento e outro, e a vida parece não ser mais do que um poço escuro repleto de indecisão.

Muitos dirão que eu exagero – e é verdade. Mas o fato é que nunca vivi uma separação inteiramente civilizada. Temo que elas não existam. Na minha experiência, em algum momento o monstro sempre dá as caras. Mesmo nas relações mais doces ele aparece – ainda que seja no finalzinho, ou depois.

Lembro de me separar de uma mulher tão querida, com quem eu tinha uma relação de tanto carinho, que nos era impossível brigar de verdade. Quando ela se punha a berrar comigo eu achava a cena cômica, e ria. Mesmo assim teve barraco, semanas depois da separação. Eu soube que ela estava saindo com um sujeito qualquer e achei que tinha o direito de receber esclarecimentos. Liguei, cobrei e ela – com toda razão – disse que aquilo não era da minha conta e mandou que eu me catasse. Foi aí que o monstro pegou o telefone do meu lado e entrou na conversa. Lembro perfeitamente de algumas coisas que ele disse, e da frieza torpe com que disse, mas tenho vergonha de reproduzir. Do lado de lá, claro, apareceu outro monstro, de cílios postiços e batom vermelho, que gritou ao telefone coisas terríveis, tiradas do baú do ressentimento. Não foi nada bom.

Uma das características mais surpreendentes do monstro da separação é que gente nem imagina quando ele veio ao mundo. Lembramos perfeitamente do dia, da hora e talvez mesmo do exato segundo em que o amor começou. Ou, pelo menos, da sensação de estar diante da possibilidade do amor. Mas temos uma dificuldade enorme em perceber o momento em que a casa começa a cair. Exceto nos romances e nos filmes, que tentam explicar o inexplicável, ninguém acumula pistas para esse tipo de desfecho. Ninguém diz, por exemplo: aquela manhã, quando eu comentei que iria voltar tarde para casa, e ela sequer me ouviu, percebi que as coisas estavam acabando. Ou então: trocamos um olhar no meio da festa e, repentinamente, ficou claro que a cumplicidade que houvera entre nós havia desaparecido.

Na vida real não é assim. Pela boa razão de que não queremos que seja. A maioria de nós gosta de ser parte de um casal, de um projeto, de um todo. Gostamos de ser amados e de amar. Assim, não nos interessa ficar espreitando o futuro na borra do café de todos os dias. Tocamos o barco, como se diz. Seguimos adiante, otimistas até prova em contrário. Quando a gente se dá conta, o mal-estar já está batendo nas coxas, como uma água suja e fria. Esse é o ambiente em que os monstros vicejam.

É evidente que ninguém chega a isso de uma hora para outra. Monstros não se improvisam. Nem se manifestam em relações que não tiveram tempo de engendrá-los. Não adianta namorar superficialmente por três meses e esperar por um sáurio escamoso de três metros na despedida. Ela não vai aparecer. Monstros são filhos bastardos da paixão e do comprometimento. São alimentados, paradoxalmente, por desejo, admiração e compromisso. Além de tempo, claro. Gente que não é capaz de amar nunca vai ter seu monstro. Pode ver o dos outros, daqueles que são capazes de amar sozinhos, mas esses não são realmente assustadores. Os monstros que nos metem medo têm as feições e os gestos das pessoas que nós amamos. Ou as nossas.

Dito isso, se eu fosse dirigir um filme de amor, tentaria evitar esse trecho final, como o cinema antigo fazia nas cenas de sexo. Depois do beijo, descia a cortina. Quem não sabia o que vinha depois não tinha idade para isso e não deveria realmente ver. Quem já sabia não precisava de explicações tão diretas. O voyerismo erótico e emocional – esse que nos dá o direito de espiar até os últimos detalhes da vida dos outros, real ou imaginária – é uma invenção relativamente recente. Se eu fosse dirigir um filme de amor, portanto, apelaria para o pudor. E acho que seria um sucesso. Aposto que o mundo está cheio de gente como eu, cansada de ver de perto o monstro da separação.

Ansiedade

A gente sofre por ansiedade, não tem jeito. Bem, pelo menos é o que acontece comigo. Estou assin há pouco mais de uma semana. Conto os dias para o fim de semana, quero rever uma pessoa, fazer programas divertidos e até mesmo ficar sem fazer nada, mas ao lado desta pessoa. O que fazer enquanto isso? Nada né. Esperar, planejar, o de sempre.

O mais engraçado disso tudo é saber que esta ansiedade não adianta de nada, não ajuda em nada, não me acalma em nada. E que todo o planejamento provavelmente será furado por coisas inesperadas que SEMPRE acontecem e, acreditem, na minha vida acontecem com uma frequência enorme. Mas, ok, estou aprendendo a respirar fundo e a deixar o frio na barriga de lado. Difícil, eu sei, mas a acupuntura me ajuda bastante. Não fossem estas agulhas … sei não. O blog seria um pouco mais estranho do que já é.

Feliz

To feliz. Hoje consegui ir na acupuntura e, para minha grata surpresa, meu corpo está melhor. Já não sinto mais algumas dores de angústia, minha pele está mais hidratada, meu intestino funciona melhor. Show de bola! Também estou com a coluna um pouco melhor. É isso: devagar e sempre.

Fico feliz também porque um post aqui, 100% despretensioso, acabou inspirando uma amiga querida e ela tomou uma atitude impulsiva, mas maravilhosa. Estou na torcida por ela.

Feliz ainda porque sábado vou receber uma visita ilustre, importante mesmo. Espero um fim de semana com sol e praia.

Meu próximo casamento

Quem me acompanha pelo twitter sabe que ontem, dia 13, foi dia de Santo Antônio.  Nunca fui devota ao santo, mas, como este ano fui algumas vezes na Igreja por conta do meu amigo Marcelo, me senti mais próxima à Toinho, como o chamo carinhosamente.

Enfim, postei no twitter que rezaria pra Toinho em busca de um bom marido…. e ele atendeu. Rápido demais até. Me arrumou logo um casamento para esta sexta feira, um casamento junino, claro. Não vou contar o naipe do noivo que me arrumaram porque vai ter mais graça publicar a foto do casal no pós festa. Vocês vão rir, aposto.

O mais divertido disso tudo é que o lance do casamento realmente mexe com as pessoas. Aqui na firma, já fui parada por duas pessoas no corredor. Pessoas que nunca falaram comigo e mandaram: “Você vai ser a noiva? Que legal!”. pois é, legal. Espero me divertir e contar boas histórias.

Também espero que esta quadrilha seja um tanto organizada porque, te contar, a quadrilha que tentamos dançar na festa junina dos Piores não deu muito certo. Era cada casal pra um lado, a maioria não sabia fazer o clássico beija-flor, nem mesmo um caracol decente. Sofrido, mas divertido.

A dor de um amor

Estou lendo o livro “Um dia”, de David Nicholls, e confesso que quase chorei por algumas páginas. Estou encantada pela história, pela descrição dos cenários e do caráter dos personagens. Rola uma identificação ímpar, talvez por tudo o que já vivi. Hoje assisti ao trailer do filme que etsreará mês que vem nos EUA. Nossa, quase morri. Certeza de que vou me emocionar muito no cinema.

A Luciana, que já leu, me contou à forceps o fim do livro. Ela não queria, mas eu não vou aguentar e a convenci. Nosso, to morrendo até agora e reunindo forças para tocar a leitura adiante. Que sofridooooo. Enfim, depois conto mais sobre o livro.

Sim, estou romântica

Sim, confesso que estou romântica/apaixonada/boba. Fácil perceber pelos posts, eu sei. Então, já que estamos na semana dos namorados, onde tudo e todos nas ruas nos lembram que o dia 12 está batendo à porta, segue mais uma música:

Never Tear Us Apart

Don’t ask me

What you know is true

Don’t have to tell you

I love your precious heart

I, I was standing

You were there

Two worlds collided

And they could never tear us apart

We could live For a thousand years

But if I hurt you

I’d make wine from your tears

I told you That we could fly

‘Cause we all have wings

But some of us don’t know why

I, I was standing

You were there

Two worlds collided

And they could never ever tear us apart

Música do dia 2

I Ran

I walked along the avenue.

I never thought I’d meet a girl like you;

Meet a girl like you.

With auburn hair and tawny eyes;

The kind of eyes that hypnotize me through;

Hypnotize me through.

And I ran, I ran so far away.

I just ran, I ran all night and day.

I couldn’t get away.

A cloud appears above your head;

A beam of light comes shining down on you,

Shining down on you.

The cloud is moving nearer still.

Aurora borealis comes in view;

Aurora comes in view.

And I ran, I ran so far away.

I just ran, I ran all night and day.

I couldn’t get away.

Reached out a hand to touch your face;

You’re slowly disappearing from my view;

Disappearing from my view.

Reached out a hand to try again;

I’m floating in a beam of light with you;

A beam of light with you.

And I ran, I ran so far away.

I just ran, I ran all night and day.

I couldn’t get away.

I Ran

I walked along the avenue.

I never thought I’d meet a girl like you;

Meet a girl like you.

With auburn hair and tawny eyes;

The kind of eyes that hypnotize me through;

Hypnotize me through.

And I ran, I ran so far away.

I just ran, I ran all night and day.

I couldn’t get away.

A cloud appears above your head;

A beam of light comes shining down on you,

Shining down on you.

The cloud is moving nearer still.

Aurora borealis comes in view;

Aurora comes in view.

And I ran, I ran so far away.

I just ran, I ran all night and day.

I couldn’t get away.

Reached out a hand to touch your face;

You’re slowly disappearing from my view;

Disappearing from my view.

Reached out a hand to try again;

I’m floating in a beam of light with you;

A beam of light with you.

And I ran, I ran so far away.

I just ran, I ran all night and day.

I couldn’t get away.

Tem como não amar?

Sempre assisti aos Simpsons. Meu pai também adorava e costumávamos assistir juntos. Desde que perdi meu companheiro de seriado, confesso que deixei a série um pouco de lado. Mas, agora, acho que vou retomar ao projeto Simpsons. Afinal, tem como não amar um cara como o Homer e suas pérolas:

“Existem três frases curtas que levarão sua vida adiante: ‘Não diga que fui eu!’, ‘Oh, boa idéia chefe!’ e ‘Já estava assim quando cheguei.’”

 “Você pode ter todo o dinheiro do mundo, mas há algo que jamais poderá comprar: um dinossauro.”

” Álcool… A causa e solução de todos os problemas.”

Música do dia…

Total Eclipse Of The Heart

(Turn around)
Every now and then, I get a little bit lonely and
you’re never coming round
(Turn around)
Every now and then, I get a little bit tired of
listening to the sound of my tears
(Turn around)
Every now and then, I get a little bit nervous that
the best of all the years have gone by
(Turn around)
Every now and then, I get a little bit terrified and
then I see the look in your eyes
(Turn around, bright eyes)
Every now and then, I fall apart
(Turn around, bright eyes)
Every now and then, I fall apart
(Turn around)
Every now and then I get a little bit restless
and I dream of something wild
(Turn around)
Every now and then I get a little bit helpless
and I?m lying like a child in your arms
(Turn around)
Every now and then I get a little bit angry
and I know I?ve got to get out and cry
(Turn around)
Every now and then I get a little bit terrified but
then I see the look in your eyes
(Turn around, bright eyes)
Every now and then, I fall apart
(Turn around, bright eyes)
Every now and then, I fall apart
And I need you now tonight, and I need you more than ever
And if you only hold me tight, we’ll be holding on forever
And we’ll only be making it right
‘cause we’ll never be wrong together
We can take it to the end of the line
Your love is like a shadow on me all of the time
(all of the time)
I don’t know what to do and I’m always in the dark
We’re living in a powder keg and giving off sparks
I really need you tonight
Forever’s gonna start tonight
Forever’s gonna start tonight
Once upon a time, I was falling in love
But now, I’m only falling apart
There’s nothing I can do
A total eclipse of the heart
Once upon a time, there was light in my life
But now, there’s only love in the dark
Nothing I can say
A total eclipse of the heart
(Instrumental Bridge)
Turn around, bright eyes
Turn around, bright eyes
And I need you now tonight, and I need you more than ever
And if you’ll only hold me tight,
we’ll be holding on forever
And we’ll only be making it right ‘cause we’ll never
be wrong together
We can take it to the end of the line
Your love is like a shadow on me all of the time
(all of the time)
I don’t know what to do and I’m always in the dark
We’re living in a powder keg and giving off sparks
I really need you tonight
Forever’s gonna start tonight
Forever’s gonna start tonight
Once upon a time, there was light in my life
But now, there’s only love in the dark
Nothing I can say
A total eclipse of the heart
A total eclipse of the heart
A total eclipse of the heart
(Turn around, bright eyes)

Mingau de Chocolate

servido?

Então, parece besteira, mas não é. Sou boa cozinheira, pelo menos é o que dizem,mas, acredite, nunca fiz um mingau de chocolate. Quero aprender. Preciso aprender. Então, para me estimular, decidi publicar aqui uma receita. Parece ser simples. E é. Espero que dê certo. Segue a receita:

Ingredientes:

 

  • 1 xícara grande de leite
  • 2 colheres (sopa) de amido de milho
  • 3 colheres (sopa) cheias de chocolate em pó
  • 1 colher (sopa) de açúcar

Preparo

 

1º Misture todos os ingredientes na xícara de leite até formar um achocolatado.

2º Leve ao fogo baixo em uma panela pequena e fique mexendo. Sirva em um prato fundo e coloque canela por cima do mingau.

 

 

 

 

Quem ama uma piriguete?

Mais uma vez a coluna do Ivan, no site da Época, está sensacional. Concordo com ele. As periguetes são fundamentais na nossa sociedade.  Dá uma lida:

Era tarde da noite, eu estava na porta do bar, na Vila Madalena, quando parou um táxi e dele desceram três garotas. Pela carinha, teriam pouco mais de 20 anos. Pela atitude, parecia mais. Salto alto, vestido curtinho, hiper-maquiadas, elas saíram do carro e atravessam a rua lentamente, sob a luz de dezenas de olhares. Quando faltava um metro para que sumissem dentro do bar na outra calçada, um gaiato rompeu o silêncio. “Chegaram as piriguetes”, ele disse, não tão alto que elas pudessem ouvir, mas alto o suficiente para que muitos rissem. As meninas desapareceram no interior do bar.

Dessa cena, eu saí com a impressão de que as piriguetes – quem quer que elas sejam, ou o que quer que elas sejam – mexem com as emoções das pessoas.

Os homens, obviamente, gostam de mulheres atraentes que parecem fáceis, embora tenham, diante delas, uma atitude enganosamente desdenhosa. Eles olham, desejam e até dão em cima, mas o fazem (quando sóbrios) de um jeito envergonhado, quase como se pegasse mal. Na escala do desejo as piriguetes estão lá em cima. Na escala da respeitabilidade, lá embaixo. Tem de ser macho para amar uma delas.

As mulheres reagem de forma diferente às pirigutes. Diante da concorrência desregrada, tornam-se irônicas, quando não hostis. Assim que seus homens começam a virar o pescoço e esticar os olhos, elas tendem a reagir com comentários que sublinham a enorme diferença entre elas mesmas e aquele pedaço de carne malhado e vazio. Como diz uma amiga minha, além de serem sempre lindas e gostosas, as piriguetes não têm nenhum constrangimento em serem vistas apenas como um corpão. Quem pode com uma tipa dessas?

Da minha parte, confesso certa simpatia pela figura da piriguete, por uma razão essencial: elas expressam, de uma forma às vezes caricatural, sentimentos que estão por toda parte, reprimidos. Numa sociedade que fica estimulando as mulheres a serem sedutoras 100% do tempo, a se preocupar obsessivamente com a aparência, as piriguetes são as que obedecem as ordens de cima sem hesitação – e por isso parecem ridículas. Elas não disfarçam a intenção de atrair os olhares e nem têm pudor de exibir o decote que outras mulheres pensariam 10 vezes antes de pôr à mostra. Para repetir um clichê, elas fazem à claras, o todo o tempo, o que outros só têm coragem de fazer de vez em quando, escondidos.

Sempre houve esse tipo de garota, com outro nome. Quando eu era adolescente, usava-se uma palavra pesada para descrever as meninas selvagens que agiam de forma considerada vulgar ou excessiva. Elas eram chamadas de biscates e tinham fama de fáceis. Na geração anterior, mulheres demasiadamente preocupadas em atrair a atenção eram chamadas de coquetes – e a palavra tinha uma conotação de leviandade. Era também um julgamento de caráter. Agora se diz piriguete para expressar a mesma velha combinação de atração e preconceito.

Sábado passado eu estava numa festa quanto chegaram duas garotas altas, morenas e bonitas. Atraíram a atenção de todos, instantaneamente, por um motivo simples: enquanto a maioria das garotas na festa vestia o estilo “cinza-classe média” do inverno de São Paulo, elas usavam shorts, costas de fora e sandálias de salto. Mas a diferença não parava aí. Em cinco minutos, uma delas estava na cozinha dando palestras a um grupo de gays sobre intimidades anatômicas masculinas. Dizia coisas de fazer corar o padre. Confirmando as inclinações dadivosas da categoria, eu soube depois que as duas ficaram com um mesmo sortudo desacompanhado que se manteve sóbrio o suficiente até o final da festa. Ele pegou as piriguetes – ou teriam sido elas que pegaram ele?