Lindo, tocante, perfeito

Copiei, deliberadamente, o texto abaixo do blog da Rosana,  Querido Leitor, porque fiquei tocada. As palavras não são de Rosana (esta fez uma bela tradução), mas da irmã de Steve Jobs, Mona Simpson, e nos dá uma outra perspectiva sobre vida, morte, enfim… coisas com as quais não consigo parar de pensar. Segue o texto:

By MONA SIMPSON
Published: October 30, 2011

Fui criada como filha única de mãe solteira. Por sermos pobres e por saber que meu pai era um imigrante sírio, eu imaginava que fosse parecido com Omar Sharif.  Eu sonhava que ele era rico e bondoso e que entraria em nossa vida (e no nosso apartamento ainda sem mobília) para nos ajudar. Mais tarde, depois que conheci meu pai, tentei acreditar que ele havia mudado de telefone sem deixar um endereço de contato porque era um revolucionário idealista, arquitetando um novo mundo para o povo árabe.

 

Mesmo sendo feminista, passei a vida inteira esperando um homem para amar, um homem que pudesse me amar também. Durante décadas pensei que esse homem seria meu pai. Aos 25 anos eu encontrei esse homem e ele era meu irmão.

 

Nessa época eu morava em Nova York e estava tentando escrever meu primeiro romance. Eu tinha um emprego numa pequena revista, um escritório que tinha o tamanho de um closet, com mais três aspirantes a escritor. No dia que um advogado ligou para mim – eu, uma garota de classe média da Califórnia que infernizava o patrão para nos dar seguro saúde – e disse que seu cliente rico e famoso era meu irmão desaparecido há muitos anos, o editor mais jovem enlouqueceu. Estávamos em 1985 e trabalhávamos numa revista de vanguarda, mas eu havia caído num enredo de um romance de Charles Dickens e, de fato, era disso que a gente mais gostava.

 

O advogado se recusou a me dizer o nome de meu irmão e meus colegas começaram uma rodada de apostas. O principal candidato: John Travolta. Eu desejava secretamente que fosse um descendente literário de Henry James – alguém com mais talento que eu, alguém que fosse naturalmente brilhante.

Quando conheci Steve, ele era um cara da minha idade e de jeans, com aparência de árabe ou judeu e mais bonito do que o Omar Sharif.

Fizemos uma longa caminhada – algo que, por acaso, nós dois gostávamos muito de fazer. Não me lembro bem o que conversamos naquele primeiro dia, só sei que ele parecia alguém que eu tinha escolhido para ser meu amigo. E me contou que trabalhava com computadores.

Eu não sabia muito sobre computadores. Eu ainda trabalhava numa máquina de escrever manual da Olivetti.

Eu disse para Steve que recentemente eu estava considerando a possibilidade de comprar um computador: algo chamado Cromemco.

Steve disse que era melhor eu esperar um pouco. Que estava construindo algo que seria incrivelmente lindo.

Eu quero contar algumas coisas que aprendi com Steve, durante três períodos distintos, ao longo dos 27 anos que convivi com ele. Não são períodos de anos, mas de estados de existência. Sua vida inteira. Sua doença. Sua morte.

Steve trabalhava com aquilo que ele amava. Ele trabalhava muito. Todos os dias.

É uma coisa incrivelmente simples, mas verdadeira.

Ele era o oposto de distraído.

Steve unca se envergonhou de trabalhar duro, mesmo quando os resultados eram fracassos. Se uma pessoa inteligente como Steve não tinha vergonha de experimentar, talvez eu também não devesse me envergonhar disso.

Quando foi demitido da Apple, foi muito doloroso. Ele me contou sobre um jantar em que 500 líderes do Silicon Valley encontraram o então presidente em exercício. Steve não foi convidado.

Ele estava magoado, mas continuou indo trabalhar na Next. Todos os dias.

A novidade não era o valor mais importante para Steve. A beleza era.

 

Para um inovador Steve era incrivelmente leal. Se ele gostava de uma camisa, ele encomendava de 10 a 100 delas. Na casa em Palo Alto o número de camisetas pretas de algodão e gola alta deve ser suficiente para  todas as pessoas aqui nessa igreja.

Ele não dava importância para tendências ou truques. E gostava de pessoas da sua idade.

Sua filosofia estética me faz lembrar de uma frase que eu li e que era mais ou menos assim:”Moda é aquilo que parece lindo agora mas se torna feio depois; arte é o que pode parecer feio agora mas se torna lindo depois”.

Steve sempre quis a beleza depois.

Ele estava pronto para ser incompreendido.

Depois de não ser convidado para a festa, ele dirigiu o terceiro ou quarto carro esporte preto para a Next, onde ele e sua equipe estavam silenciosamente inventando a plataforma que permitiria que  Tim Berners-Lee criasse a World Wide Web.

Steve era como uma garotinha quando falava sobre o amor. O amor era sua virtude suprema, seu deus dos deuses.  Ele acompanhava e se preocupava com a vida amorosa das pessoas que trabalhavam com ele.

 

Quando ele via um homem que poderia parecer arrebatador para uma mulher, ligava pra ele e perguntava: “Ei, você é solteiro? Você quer vir jantar comigo e com minha irmã?”

Eu me lembro quando ele me ligou no dia em que conheceu Laurene. “Então, tem essa mulher linda e ela é muito inteligente e  tem um cachorro e eu vou me casar com ela.”

Quando Reed nasceu, ele começou um novo fluxo que nunca mais parou. Ele era um pai físico, com cada um de seus filhos. Ele se preocupava com os namorados de Lisa , com as viagens e o tamanho das saias de Erin e com a segurança de Eve junto aos cavalos que ela adorava.

Nenhum de nós que esteve na festa de formatura de Reed vai esquecer a cena de Reed e Steve dançando juntos uma música lenta.

 

Seu amor extremo por Laurene o sustentava. Ele acreditava que o amor acontecia o tempo todo, em todo lugar. Dessa forma tão importante, Steve nunca foi irônico, nunca foi cínico, nunca foi pessimita. Eu ainda tento aprender tudo isso.

Steve se tornou um sucesso ainda jovem e sentia que isso o isolou. A maioria das escolhas que fez a partir de quando eu o conheci foram projetadas para dissolver as paredes em torno dele. Um garoto de classe média de Los Altos, ele se apaixonou por uma garota de classe-média de New Jersey. Era importante para os dois cuidar de Lisa, Reed, Erin e Eve com os pés no chão, como crianças normais. A casa deles não intimidava ninguém com excesso de arte ou brilho; na verdade, durante os primeiros anos em que convivi com Steve e Lo juntos, o jantar era servido na grama e às vezes consistia de um único vegetal. Muito desse único vegetal.  Apenas um. Brócoli. Da estação. Preparado de forma simples. Apenas com o tempero recém colhido.

Mesmo quando já era um jovem milionário Steve sempre foi me buscar no aeroporto. Lá estaria ele em pé, em suas calças jeans.

Quando um membro da família ligava para ele no trabalho, sua secretária Linetta respondia: “seu pai está numa reunião. Você quer que eu o interrompa?”

Quando Reed insistia em se vestir de bruxa a cada Halloween, Steve, Laurene, Erin e Eve, todos aderiam.

Uma vez eles resolveram reformar a cozinha; levou anos. Eles cozinhavam num fogareiro na garagem. O prédio da Pixar, em reforma no mesmo período, foi construído em metade do tempo. E isso é tudo sobre a casa de Palo Alto. Os banheiros continuaram antigos. Mas – e isso faz toda diferença – ela havia sido uma ótima casa para começar a vida; Steve garantiu que isso fosse assim.

Isso não quer dizer que ele não desfrutou do seu sucesso: ele gostava muito de viver seu sucesso, só que com alguns zeros a menos. Ele me disse que adorava ir às lojas de bicicletas de Palo Alto e perceber que ele poderia comprar a melhor bicicleta da loja.

E assim ele fez.

Steve era humilde. Steve gostava de aprender sempre.

Uma vez ele me disse que se tivesse sido criado de forma diferente, ele teria se tornado um matemático. Ele falava com reverência sobre as faculdades e adorava andar em volta do campus de Stanford. No último ano de sua vida ele estudou um livro de pinturas de Mark Rothko, um artista que ele não havia conhecido até então, pensando no que poderia inspirar as pessoas nas paredes de um futuro campus da Apple.

Steve era refinado . Que outro CEO conhece a história dos chás de rosas Ingleses e Chineses e tem uma rosa favorita David Austin?

Ele tinha surpresas em seus bolsos. Garanto que Laurene vai descobrir algumas delas – músicas que ele amava, um poema que ele recortou e guardou numa gaveta, – mesmo depois de vinte anos de um casamento vivido a dois o tempo todo. Eu falava com ele dia sim, dia não, mas quando eu abri o New York Times e vi uma nova característica da empresa, eu fiquei surpresa e maravilhada ao ver o esboço de uma escada perfeita.

Com seus quatro filhos, sua mulher, com todos nós, Steve se divertiu muito.

Ele valorizava a felicidade.

E então ele ficou doente e vimos sua vida de comprimir para um círculo muito pequeno. Ele que adorava andar por Paris. Que havia descoberto uma lojinha que fazia macarrão artesanal em Kyoto. Que esquiava graciosamente montanha abaixo. E esquiava mal no cross-country. Nunca mais.

Com o tempo, até mesmo pequenos prazeres como um bom pêssego não mais o atraíam.

E, no entando, o que me surpreendia e que foi o que aprendi a partir de sua doença, era o quanto ainda havia depois que tudo foi tirado dele.

Lembro de meu irmão aprendendo a andar novamente. Depois de seu transplante de fígado, uma vez por dia ele ficava em pé, apoiado sobre pernas que pareciam finas demais para sustentá-lo, os braços encaixados no encosto da cadeira. Ele andava com aquela cadeira pelos corredores do Hospital Memphis até a sala das enfermeiras e depois sentava um pouco sobre a cadeira, descansava, dava a volta e começava a andar novamente. Ele contava seus passos e, a cada dia, tentava ir um pouco além.

Laurene se ajoelhava e olhava dentro dos olhos dele.

“Você consegue, Steve”, ela dizia. Os olhos deles se abriam. Seus lábios se apertavam.

Ele tentou. Ele sempre, sempre tentou e sempre com muito amor no âmago de cada tentativa. Ele era um homem intensamente emocional.

Eu percebi durante esse período aterrorizante que Steve não estava suportando a dor por si mesmo. Ele tinha objetivos: a formatura de seu filho Steve, a viagem de sua filha Erin para Kyoto, o lançamento de um barco que ele estava construindo e no qual pretendia levar sua família para uma volta ao mundo e com o qual viajaria com Laurene quando ele se aposentasse.

Mesmo doente, seu gosto, seu julgamento e discernimento se mantiveram. Ele teve 67 enfermeiros até encontrar os profissionais ideias nos quais ele confiava totalmente, os três que ficaram com ele até o final. Tracy. Arturo. Elham.

Uma vez, quando Steve havia contraído uma pneumonia insistente, seu médico proibiu tudo – até gelo. Estávamos numa UTI padrão. Steve, que não gostava de furar fila ou ter privilégios através de seu nome, confessou que nessa única ocasião, gostaria de ter um tratament especial.

Eu disse a ele: Steve, esse é um tratamento especial.

Ele chegou perto de mim e disse: “eu quero que seja um pouquinho mais especial.”

Entubado, quando ele já não podia mais falar, ele pediu um bloco de notas. E desenhou alguns aparelhos para sustentar um iPad numa cama de hospital. Ele desenhou monitores fluidos e equipamentos de raios-X. Ele redesenhou aquela unidade de tratamento não suficientemente especial. E toda vez que sua mulher entrava naquela sala, eu via um sorriso se redesenhar em seu rosto.

As coisas mais importantes, importantes mesmo, acredite, ele escrevia em seu caderno. Ele queria mais. É assim que tem que ser.

Com isso tudo ele queria que desobedecêssemos os médicos e déssemos um pedaço de gelo para ele.

Nenhum de nós sabe ao certo por quanto tempo ainda vamos estar aqui. Nos melhores dias de Steve, mesmo no último ano, ele embarcou em projetos e cobrou promessas de seus amigos da Apple para que fossem levados até o fim. Alguns construtores de barcos da Holanda tem um uma linda carcaça de aço inoxidável para ser coberta com madeira.  Suas três filhas continuam solteiras, as duas mais novas ainda jovens, e ele queria entrar na Igreja com elas da mesma forma que ele me conduziu no dia do meu casamento.

Todos nós, no final, morremos no meio do caminho. No meio de uma história. Ou de muitas histórias.

Eu acho que não é exatamente correto dizer que a morte de uma pessoa que conviveu durante anos com um câncer foi uma morte inesperada. Mas a morte de Steve foi inesperada para nós.

O que eu aprendi com a morte do meu irmão é que o caráter é essencial. O que ele era foi como ele morreu.

Na terça-feira pela manhã ele me ligou para pedir que eu fosse correndo para Palo Alto. Seu tom de voz era afetivo, querido, amoroso, mas parecia alguém  cujas malas já estavam amarradas ao carro, alguém que já estava no início de sua jornada, apesar dele lamentar de verdade o fato de estar nos deixando.

Ele começou sua despedida e eu o interompi. Eu disse “Espere. Eu estou chegando. Estou num táxi para o aeroporto, mas já chego”.

“Eu estou falando isso agora porque eu temo que você não consiga chegar a tempo, querida.”

Quando eu cheguei, ele e sua Laurene estavam brincando juntos, como parceiros que viveram e trabalharam juntos todos os dias de sua vida. Ele olhou para os olhos de seus filhos sem conseguir desfazer a conexão.

Até duas horas da tarde, sua esposa conseguiu fazer com que ele conversasse com seus amigos da Apple.

E então, depois de um tempo, ficou claro que ele não mais acordaria entre nós.

Sua respiração mudou. Ficou forte, deliberada, intencional. Eu podia sentí-lo contando seus passos novamente, empurrando um pouco mais além.

Foi isso que eu aprendi: ele estava trabalhando nesse projeto. A morte não foi algo que aconteceu com Steve, mas algo que ele conquistou.

Ele me disse que, quando estava se despedindo de mim e me dizendo que lamentava muito por não poder envelhecer junto comigo como havíamos planejado,  estava indo para um lugar melhor.

Dr. Fischer deu a ele uma chance de 50/50 de conseguir atravessar a noite.

Ele conseguiu sobreviver àquela noite, com Laurene a seu lado da cama, às vezes sobressaltada quando havia uma pausa maior entre suas respirações. Ela e eu nos entreolhávamos e então ele respiraria fundo e começaria novamente.

Isso tinha que acontecer. Mesmo nesse momento, ele tinha um perfil bonito, o perfil de um absolutista, um romântico. Sua respiração indicava uma jornada árdua, um caminho íngreme, altitude.

Ele parecia estar escalando.

Mas com aquela vontade, aquela ética de trabalho, aquela força, havia também aquela doce capacidade de Steve para a maravilha, a crença do artista no ideal, no fato de que haveria mais beleza depois.

As palavras de Steve, horas antes, foram monossilábicas, repetidas três vezes.

Andes de embarcar, ele olhou para sua irmã adotiva Patty, depois um bom tempo para seus filhos, depois para sua companheira de vida Laurene e então por cima dos seus ombros, além de todos eles.

As palavras finais de Steve foram:

OH WOW. OH WOW. OH WOW.

 

 

Mona Simpson é escritora e professor de Inglês na Universidade da Califórnia, Los Angeles. Ela leu essa eulogia para seu irmão, Steve Jobs, no dia 16 de outubro durante a cerimônia póstuma realizada na Memorial Church da Universidade de Stanford.

 

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